{"id":1000,"date":"2006-04-06T11:44:00","date_gmt":"2006-04-06T14:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.atini.org.br\/outras-histrias\/"},"modified":"2019-01-07T11:54:18","modified_gmt":"2019-01-07T14:54:18","slug":"outras-historias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.atini.org.br\/en\/outras-historias\/","title":{"rendered":"Outras hist\u00f3rias"},"content":{"rendered":"<p>Os relatos que se seguem s\u00e3o ver\u00eddicos e foram publicados na cartilha <strong>O Direito de Viver<\/strong>, mas a identidade das pessoas envolvidas foi preservada e os nomes s\u00e3o fict\u00edcios. Utilizando uma linguagem simplificada, de f\u00e1cil entendimento, a cartilha explica as leis que protegem os direitos das crian\u00e7as, conta hist\u00f3rias reais de v\u00edtimas e sobreviventes do infantic\u00eddio, e j\u00e1 foi distribu\u00edda para representantes mais de 50 etnias.<\/p>\n<p><strong>CRIAN\u00c7AS G\u00caMEAS T\u00caM DIREITO DE VIVER<\/strong><br \/>\nNo ano passado Raimundinha ficou gr\u00e1vida. Ela morava numa comunidade distante no Amazonas. L\u00e1 as meninas n\u00e3o t\u00eam muito valor. Todo mundo prefere os meninos. Raimundinha j\u00e1 tinha tr\u00eas filhas meninas e estava com medo de ter outra. Se nascesse mais uma menina, as pessoas iam falar muito mal dela. Ela n\u00e3o ia ag\u00fcentar e ia acabar matando sua filha. Ramundinha passou a gravidez toda com medo. Na hora do parto, ela levou um susto muito grande porque nasceram duas meninas da mesma barriga. Ela ficou apavorada e chamou o marido. Roberto ficou t\u00e3o triste quando viu as crian\u00e7as que o cora\u00e7\u00e3o dele quase parou. Ele flechou as duas crian\u00e7as e saiu de perto. Raimundinha sofreu muito por causa das suas filhas que morreram.<\/p>\n<p>Em outra comunidade muito distante, no Mato Grosso, mora Vera com seu marido. Eles se preocupam muito com as crian\u00e7as g\u00eameas que s\u00e3o enterradas vivas pelas suas m\u00e3es, que \u00e9 um antigo costume das pessoas desse povo. Vera sempre disse que queria ajudar essas crian\u00e7as. Uma mulher de uma comunidade sabia do amor que Vera tinha pelas crian\u00e7as. Um dia essa mulher engravidou e teve g\u00eameos. Eram dois meninos lindos, mas ela n\u00e3o podia ficar com eles. Ela se lembrou de Vera e avisou os parentes. Mandaram chamar Vera e lhe entregaram as crian\u00e7as. Os beb\u00eas s\u00e3o muito bonitos e est\u00e3o crescendo com sa\u00fade. Vera e seu marido est\u00e3o muito alegres.<\/p>\n<p><strong>CRIAN\u00c7AS QUE S\u00c3O FILHAS DE M\u00c3E SOLTEIRA T\u00caM DIREITO DE VIVER<\/strong><br \/>\nJo\u00e3o nasceu numa aldeia na regi\u00e3o do rio Xingu. Sua m\u00e3e era uma menina muito nova e ainda n\u00e3o tinha marido. Ela tinha muita vergonha e n\u00e3o queria a crian\u00e7a. Quando Jo\u00e3ozinho nasceu ela cortou o umbigo bem curtinho e enterrou o menino perto da casa. Ainda pisou em cima para socar bem a terra. Rita, uma mulher da aldeia, ficou com pena da crian\u00e7a. Esperou a m\u00e3e voltar para casa e desenterrou Jo\u00e3o. Conseguiu salv\u00e1-lo, mas ele ficou muito doente, at\u00e9 hoje. Rita gosta muito dele e o trata como filho. Jo\u00e3zinho tamb\u00e9m adora sua m\u00e3e Rita. Ela n\u00e3o \u00e9 m\u00e3e de sangue, mas \u00e9 m\u00e3e tamb\u00e9m, porque salvou ele da morte.<\/p>\n<p>Sandrinha teve o mesmo problema, mas ela nasceu numa comunidade no Amazonas. A m\u00e3e dela era solteira e tinha medo de enfrentar seu pai. Por isso, abandonou Sandrinha. Ela ficou jogada na mata, pegou chuva, passou frio, mas escapou de ser comida por algum bicho. Umas meninas, parentes dela, avisaram onde ela estava para um homem que trabalhava na aldeia. Dois dias depois, ele encontrou a bebezinha ainda viva. Ela foi adotada pela fam\u00edlia desse homem e est\u00e1 crescendo feliz e com sa\u00fade. Passa uma parte do ano na cidade e outra parte do ano na aldeia.<\/p>\n<p>(Anos antes, na primeira gravidez, a m\u00e3e de Sandrinha tinha abortado a crian\u00e7a. Na segunda gravidez, ela ficou muito preocupada porque seu pai ia matar o beb\u00ea assim que ele nascesse. Ela sabia que na sua comunidade jovens solteiras gr\u00e1vidas trazem muito desgosto para a fam\u00edlia. Quando a hora do parto chegou, e o beb\u00ea nasceu na mata, algumas meninas tentaram escond\u00ea-lo at\u00e9 que algu\u00e9m chegasse para salv\u00e1-lo. Infelizmente, o av\u00f4 da crian\u00e7a chegou primeiro e matou o beb\u00ea com uma flecha.)<\/p>\n<p><strong>CRIAN\u00c7AS QUE T\u00caM PROBLEMA DE CABE\u00c7A T\u00caM DIREITO DE VIVER<br \/>\n<\/strong>A m\u00e3e de Pedrinho era muito corajosa. O pai n\u00e3o assumiu, mas a m\u00e3e resolveu cuidar dele sozinha. Pedrinho estava crescendo bem, mas ela ficou triste quando viu que o menino tinha problema de cabe\u00e7a. N\u00e3o conseguia falar direito, andava com muita dificuldade, n\u00e3o entendia o que as pessoas falavam com ele. Na comunidade, todo mundo zombava dele e sua m\u00e3e sofria muito. Mesmo assim, ela n\u00e3o aceitou matar Pedrinho. Disse que era filho dela e que ela mesma ia cuidar. Ele cresceu e ela carregava nas costas para todo canto. Carregava quando ia para o ro\u00e7ado, quando ia tomar banho, ou quando ia pescar. Ele era muito pesado, mas ela carregava. S\u00f3 que um dia ela ficou muito doente e morreu. Pedrinho ficou sozinho, n\u00e3o tinha ningu\u00e9m para cuidar dele. Uma tia pegou sumo de timb\u00f3, que \u00e9 uma raiz venenosa, e deu para ele beber. Pedrinho sofreu muito com dor at\u00e9 morrer sufocado. Ele j\u00e1 era quase um rapazinho quando foi envenenado pela tia. Muita gente achou errado, mas ningu\u00e9m falou nada.<\/p>\n<p><strong>CRIAN\u00c7AS ESPECIAIS, QUE NASCEM COM ALGUM PROBLEMA, T\u00caM DIREITO DE VIVER<\/strong><br \/>\nPaulo era filho de um grande ca\u00e7ador. Era gordinho e calmo, amado pelos pais e pelos irm\u00e3os. Sua m\u00e3e gostava muito dele, mas come\u00e7ou a ficar nervosa quando viu que ele era diferente dos outros filhos. Paulo n\u00e3o aprendeu a andar e nem a falar. Ficava s\u00f3 sentado na beira do fogo, olhando para o fogo. Quando Paulo tinha tr\u00eas anos nasceu sua irm\u00e3zinha. Ela era muito alegre e sua m\u00e3e lhe deu o nome de L\u00facia. A tristeza da fam\u00edlia foi muito grande quando viu que L\u00facia era igual ao Paulo. Ela tamb\u00e9m n\u00e3o conseguia andar nem falar. Muitas pessoas na comunidade acharam que Paulo e L\u00facia n\u00e3o eram gente de verdade. Acharam que eles eram filhos de algum esp\u00edrito. As pessoas come\u00e7aram a falar mal da fam\u00edlia e a dizer que os pais deveriam dar veneno para eles, e ficar s\u00f3 com os filhos bons. A fam\u00edlia de Paulo come\u00e7ou a ser maltratada e eles ficaram muito envergonhados. Eles amavam seus filhos e n\u00e3o queriam mat\u00e1-los. O tempo foi passando e o problema continuava. A situa\u00e7\u00e3o ficava cada vez pior at\u00e9 que um dia o pai e a m\u00e3e de Paulinho tomaram veneno e morreram. Foi uma grande tristeza na aldeia. Toda a comunidade chorou. O irm\u00e3o mais velho de Paulo chorou muito. Depois do enterro dos pais ele fez um buraco do lado da casa e enterrou vivo seu irm\u00e3ozinho. L\u00facia eles n\u00e3o enterraram, mas ela sofreu muito. Passou 2 anos abandonada, passando fome e sendo muito maltratada.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria de L\u00facia mudou quando seu irm\u00e3ozinho decidiu entreg\u00e1-la a um casal que trabalhava na \u00e1rea ind\u00edgena. Eles adotaram L\u00facia como filha e conseguiram tratamento m\u00e9dico para ela. Logo ela aprendeu a andar, a falar e hoje \u00e9 uma menina feliz e bem tratada. L\u00facia trouxe muita alegria para seus pais adotivos.<\/p>\n<p><strong>CRIAN\u00c7AS QUE OS PAIS N\u00c3O QUEREM CRIAR, OU N\u00c3O PODEM CRIAR, T\u00caM DIREITO DE VIVER<br \/>\n<\/strong>Ben\u00e9 nasceu gordinha, mas sua m\u00e3e morreu logo depois do parto. O pai era muito novo e n\u00e3o sabia o que fazer com a menina. Entregou para uma tia. Essa tia passou para outra e assim ela ficou passando de m\u00e3o em m\u00e3o. Ben\u00e9 vivia doente e ningu\u00e9m tinha condi\u00e7\u00f5es de cuidar dela. De vez em quando, as enfermeiras ou as mission\u00e1rias ajudavam um pouco, davam comida, davam rem\u00e9dio. Mas logo largavam ela de novo. Ben\u00e9 ficou abandonada mas foi crescendo aos poucos. Tinha \u00e9poca que n\u00e3o conseguia nem andar, de t\u00e3o fraquinha. Come\u00e7ou a ser maltratada, abusada, machucada, at\u00e9 que n\u00e3o deixaram mais ela dormir dentro da casa. Tinha que dormir no mato, no escuro, sozinha. Uma vez foi jogada num formigueiro e quase morreu. As enfermeiras resolveram mandar ela para morar na CASAI, uma casa do governo onde os \u00edndios ficam para fazer tratamento m\u00e9dico na cidade. Ela ficou morando l\u00e1 muitos anos e sofreu muito. Dentro da CASAI, ela foi muito abusada e as enfermeiras tinham que dar rem\u00e9dio para ela n\u00e3o engravidar. Depois de muitos anos, uma mulher conseguiu tirar ela da CASAI para adotar. Ben\u00e9 agora est\u00e1 sendo muito bem tratada pela sua nova m\u00e3e. Mas ela sofreu tanto que n\u00e3o consegue falar at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p><strong>CRIAN\u00c7AS QUE O PAI \u00c9 DE OUTRA ETNIA T\u00caM DIREITO DE VIVER<\/strong><br \/>\nZezinho nasceu fraquinho e meio doente. N\u00e3o tinha pai e a m\u00e3e n\u00e3o tinha condi\u00e7\u00f5es de cuidar dele direito. Algumas pessoas ajudavam. \u00c0s vezes, a enfermeira dava rem\u00e9dios, leite, bolacha. Assim ele foi crescendo e foi melhorando. J\u00e1 tinha quase tr\u00eas anos quando a m\u00e3e ficou doente e morreu. Os parentes choraram muito, foi uma tristeza muito grande. Ningu\u00e9m sabia o que iria acontecer com o Zezinho, agora que a m\u00e3e tinha morrido. Ningu\u00e9m sabia quem era o pai dele. Diziam que ele era de outra etnia, de outro povo. O l\u00edder da comunidade, sem saber o que fazer com o menino, mandou enterrar Zezinho junto com o corpo da m\u00e3e. Muita gente chorou. Um parente chegou e tentou desenterrar o menino, mas ele j\u00e1 tinha morrido. Zezinho tinha 3 anos quando foi enterrado vivo junto com o corpo da m\u00e3e.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os relatos que se seguem s\u00e3o ver\u00eddicos e foram publicados na cartilha O Direito de Viver, mas a identidade das pessoas envolvidas foi preservada e os nomes s\u00e3o fict\u00edcios. 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