{"id":1001,"date":"2006-04-05T20:09:00","date_gmt":"2006-04-05T23:09:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.atini.org.br\/crianas-que-no-conseguimos-salvar\/"},"modified":"2019-01-07T11:50:51","modified_gmt":"2019-01-07T14:50:51","slug":"crianas-que-no-conseguimos-salvar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.atini.org.br\/en\/crianas-que-no-conseguimos-salvar\/","title":{"rendered":"Crian\u00e7as que n\u00e3o conseguimos salvar"},"content":{"rendered":"<p>AGAMIJIRU era adolescente e ultimamente s\u00f3 andava de cabe\u00e7a baixa pela maloca. Todos na aldeia a desprezavam e zombavam dela a medida que sua barriga crescia. Jovens solteiras gr\u00e1vidas trazem grande desgosto a uma fam\u00edlia suruwah\u00e1 e Agamijiru sabia disso. Na primeira gravidez ela tinha conseguido abortar a crian\u00e7a, mas dessa vez nada tinha adiantado e a barriga crescia sem parar. Ultimamente ningu\u00e9m mais falava com ela na maloca, a n\u00e3o ser suas irm\u00e3s mais novas. Essas sim, eram as suas companheiras, e a acompanhavam onde quer que ela fosse.<\/p>\n<p>Agamijiru estava apavorada, porque sabia que seu pai iria matar o beb\u00ea assim que nascesse. Ela queria entregar o beb\u00ea a Luc\u00edlia, a mission\u00e1ria que trabalhava na aldeia, mas sabia que seu pai n\u00e3o iria permitir. Quando a hora do parto foi chegando, Luc\u00edlia estava longe e o pai de Agamijiru tamb\u00e9m, tinha sa\u00eddo para ca\u00e7ar. O beb\u00ea nasceu na mata e as irm\u00e3zinhas de Agamijiru tentaram escond\u00ealo at\u00e9 Luc\u00edlia chegar. A caminhada era longa e a corrida era contra o tempo. Infelizmente o av\u00f4 da crian\u00e7a chegou primeiro e acertou-a com uma flecha.<\/p>\n<p>NIAWI nasceu numa fam\u00edlia importante. Filho de um dos maiores ca\u00e7adores da tribo e irm\u00e3o de tr\u00eas lindos meninos. Ele era o quarto. Isso fazia da fam\u00edlia dele uma fam\u00edlia muito especial \u2013 quatro filhos homens! Com certeza cresceriam e viriam a matar muitas antas para alimentar o povo, exatamente como fazia seu pai.<\/p>\n<div style=\"text-align: center;\"><\/div>\n<p>Mas, para a tristeza da fam\u00edlia, Niawi n\u00e3o se desenvolvia como um menino normal. Aos tr\u00eas anos de idade ainda n\u00e3o conseguia andar nem falar. Apesar de ser um menino gordinho e bonito, todos percebiam que ele tinha alguma coisa errada. A tens\u00e3o por conta disso aumentava e a fam\u00edlia se sentia cada vez mais envergonhada e infeliz. V\u00e1rias equipes m\u00e9dicas estiveram na aldeia e viram o estado da crian\u00e7a, mas nada podia ser feito \u2013 afinal, os suruwah\u00e1 eram \u00edndios semi-isolados e o qualquer interfer\u00eacia deveria ser evitada. Pelo menos isso \u00e9 o que todos pensavam. Mission\u00e1rios chegaram a filmar e fotografar Niawi e levar o material para mostrar a alguns m\u00e9dicos em S\u00e3o Paulo. Mas nenhum diagn\u00f3stico poderia ser feito sem ver se retirar o menino da tribo. E disso os pais tinham muito medo.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o de press\u00e3o s\u00f3 aumentava e o desgosto dos pais se tornou t\u00e3o insport\u00e1vel que eles acabaram se suicidando quando Niawi tinha cinco anos, em 1998. Toda a tribo chorou muito a perda do grande ca\u00e7ador. Foram dias de luto e de canto ritual. Quando terminaram os rituais f\u00fanebres, o irm\u00e3o mais velho de Niawi lhe deu v\u00e1rios golpes na cabe\u00e7a at\u00e9 que ele desmaiasse. Depois disso, segundo relatos dos familiares, Niawi foi enterrado ainda vivo numa cova rasa perto da maloca.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>AGAMIJIRU era adolescente e ultimamente s\u00f3 andava de cabe\u00e7a baixa pela maloca. Todos na aldeia a desprezavam e zombavam dela a medida que sua barriga crescia. 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