{"id":1034,"date":"2010-01-26T17:34:00","date_gmt":"2010-01-26T20:34:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.atini.org.br\/ocorrencias-de-infanticidio-e-morte\/"},"modified":"2018-12-15T19:00:07","modified_gmt":"2018-12-15T22:00:07","slug":"ocorrencias-de-infanticidio-e-morte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.atini.org.br\/en\/ocorrencias-de-infanticidio-e-morte\/","title":{"rendered":"Ocorr\u00eancias de infantic\u00eddio e morte intencional de crian\u00e7as em grupos ind\u00edgenas brasileiros"},"content":{"rendered":"<p>O infantic\u00eddio \u00e9 pr\u00e1tica tradicional em muitos grupos ind\u00edgenas brasileiros, tendo sido apontado pelo coordenador da Funasa (\u00f3rg\u00e3o respons\u00e1vel pelos programas de sa\u00fade ind\u00edgena) em 2007, Ramiro Teixeira, uma das principais causas da mortalidade infantil entre os Yanomami, segundo o jornal Folha de Boa Vista em 24 de outubro de 2007.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<blockquote><p>&#8220;&#8230; na avalia\u00e7\u00e3o dos indicadores de mortalidade infantil, por exemplo, tomando como base os \u00faltimos cinco anos foi verificado que os coeficientes mant\u00eam um equil\u00edbrio constante, sendo que a maior causa da mortalidade infantil vem da pr\u00f3pria cultura yanomami, com o infantic\u00eddio. (2007). Entretanto, n\u00e3o h\u00e1 registros precisos de quantos casos ocorrem, por conta da sub-notifica\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<p>As etn\u00f3grafas Helo\u00edsa Pagliaro e Carmen Junqueira, em estudos sobre a demografia Kamaiur\u00e1, observaram \u2015&#8230;dificuldades advindas do pequeno volume populacional e da sub contagem de \u00f3bitos, devido \u00e0 pr\u00e1tica cultural do infantic\u00eddio e as dificuldades em registrar esses eventos&#8230;\u2016 (2007, p. 40). H\u00e1 ainda registros documentados de ocorr\u00eancia de infantic\u00eddio no Brasil, entre grupos Kamayur\u00e1 (Pagliaro e Junqueira, 2007, Pagliaro et Al, 2004), Suy\u00e1 (Pagliaro et al, 2007), Yanomami (Early e Peters, 2000 e Silveira, sem data), Suruwah\u00e1 (Feitosa, Tardivo e Carvalho, 2006; Dal Poz, sem data; Kaiabi, Kuikuro (Freitas, Freitas e Santos, 2005), Amundawa e Urueu-Wau-Wau (Simonian, 2001), Kaiabi (Pagliaro, 2002).<\/p>\n<p>Saulo Ferreira Feitosa, Carla R\u00fabia Flor\u00eancio Tardivo e Samuel Jos\u00e9 de Carvalho, autores de \u2015Bio\u00e9tica, cultura e infantic\u00eddio em comunidades ind\u00edgenas brasileiras: o caso suruah\u00e1&#8221;, apresentam tr\u00eas causas principais para o infantic\u00eddio culturalmente praticado em aldeias brasileiras:<\/p>\n<p>As raz\u00f5es s\u00e3o diversas, mas, para fins pr\u00e1ticos, podem ser agrupadas em torno de tr\u00eas crit\u00e9rios gerais: a incapacidade da m\u00e3e em dedicar aten\u00e7\u00e3o e os cuidados necess\u00e1rios a mais um filho; o fato do rec\u00e9m-nascido estar apto ou n\u00e3o a sobreviver naquele ambiente f\u00edsico e s\u00f3ciocultural onde nasceu; e a prefer\u00eancia por um sexo (2006, p. 05)<\/p>\n<p>O primeiro tipo de infantic\u00eddio apontado por Feitosa, Tardivo e Carvalho \u00e9 ligado ao cuidado a ser dispendido pelas m\u00e3es, respons\u00e1veis por tarefas tanto fora como dentro da casa e pelo cuidados dos filhos. No caso de nascimento de g\u00eameos ou de duas crian\u00e7as pr\u00f3ximas, segundo os autores, o cuidado seria dificultado e por isso essas crian\u00e7as seriam sacrificadas.<\/p>\n<p>Entre os Kamaiur\u00e1, a pr\u00e1tica de infantic\u00eddio coloca as crian\u00e7as entre os grupos de maior risco de morte (Pagliaro et al, 2004, p. 13), sendo considerados motivos para a morte das crian\u00e7as o nascimento de \u2015&#8230;g\u00eameos, de crian\u00e7as malformadas ou nascidas de uni\u00f5es inst\u00e1veis, como a de jovens solteiras, de separa\u00e7\u00e3o do casal antes do nascimento da crian\u00e7a, de mulheres vi\u00favas\u2016 (Pagliaro e Junqueira, 2007, p. 43). \u00c9 o que aponta o relato de Kamir\u00fa Kamaiur\u00e1, acerca da press\u00e3o sobre as m\u00e3es solteiras, da coer\u00e7\u00e3o para que matem seus filhos, e tamb\u00e9m do medo que os Kamaiur\u00e1 t\u00eam do nascimento de g\u00eameos:<\/p>\n<p>\u00c0s vezes a m\u00e3e quer a crian\u00e7a, mas a fam\u00edlia dela n\u00e3o deixa. \u00c9 muito dif\u00edcil. At\u00e9 hoje eu s\u00f3 consegui desenterrar um com vida, o Amal\u00e9. A m\u00e3e dele era solteira, ela chorou muito, mas o pai dela enterrou ele.<br \/>\n&#8230;<\/p>\n<p>Minha outra prima, a m\u00e3e do Mahuri, enterrou as cinco crian\u00e7as que nasceram antes dele. Ela era solteira, por isso tinha que enterrar.<br \/>\n&#8230;<br \/>\nN\u00f3s temos medo de nascer g\u00eameos, trig\u00eameos. Dizem que quando um paj\u00e9 faz feiti\u00e7o, podem nascer at\u00e9 sete crian\u00e7as. Por isso as m\u00e3es t\u00eam medo.<\/p>\n<p>O h\u00e1bito de se matar as crian\u00e7as g\u00eameas vitimou um dos filhos de Aisanam Paltu Kamaiur\u00e1, mestrando em ling\u00fc\u00edstica pela UNB, que narra:<\/p>\n<blockquote><p>Esse meu filho era g\u00eameo, tinha dois. Eles enterraram o outro. A enfermeira n\u00e3o me avisou que ela tinha g\u00eameos&#8230;. A\u00ed, depois que nasceu, a pessoa veio falar pr\u00e1 mim que eram duas crian\u00e7as&#8230;. me avisaram que iam enterrar as duas. A\u00ed eu falei que n\u00e3o, que eu precisava pegar pelo menos uma delas. Mas a fam\u00edlia n\u00e3o queria que eu pegasse nem uma das crian\u00e7as. Eu insisti e a\u00ed meu pai foi l\u00e1 para segurar uma das crian\u00e7as. Eles pegaram uma e enterraram a outra. Hoje a crian\u00e7a est\u00e1 aqui comigo, j\u00e1 tem sete meses, t\u00e1 gordinho. Quando eles enterram crian\u00e7a, o pai e a m\u00e3e sentem falta. Como \u00e9 meu caso mesmo. At\u00e9 hoje eu n\u00e3o esque\u00e7o ainda. Porque eu estou vendo o menino, o crescimento dele, a\u00ed eu penso no outro tamb\u00e9m, poxa! Se eu tivesse algu\u00e9m que me ajudasse, eu poderia criar as duas crian\u00e7as&#8230; eu falo isso. A m\u00e3e mesmo falou pr\u00e1 mim outro dia \u2015Poxa! O pessoal enterrou nosso filho, agora n\u00f3s s\u00f3 estamos com um.\u2016 \u00c9 muito triste, a gente n\u00e3o consegue esquecer. (em: SUZUKI, 2007, p. 12)<\/p><\/blockquote>\n<p>O segundo tipo de infantic\u00eddio em grupos ind\u00edgenas brasileiros, conforme Feitosa, Tardivo e Carvalho (2006), est\u00e1 ligado \u00e0 incapacidade da crian\u00e7a em sobreviver ao ambiente f\u00edsico e s\u00f3cio-cultural onde nasceu (p. 05), e aqui entram os casos das crian\u00e7as suruwah\u00e1s Niawi (enterrado vivo aos cinco anos por apresentar atraso no desenvolvimento e ter perdido os pais, que se suicidaram por se negarem a mat\u00e1-lo), Iganani (portadora de paralisia cerebral), Tititu (que nasceu com pseudo-hermafrodismo), Pipi Kamaiur\u00e1 (que perdeu a vis\u00e3o num acidente e passou a sofrer forte discrimina\u00e7\u00e3o em sua aldeia), Kanhu Raka Kamaiur\u00e1 ( portadora de Distrofia Muscular Progressiva e que foi isolada do conv\u00edvio social em sua aldeia, tendo vivido recluosa, sem acesso a tratamento m\u00e9dico, sem liberdade e sob risco constante durante muito tempo em sua aldeia), e Hakani, que tem sua hist\u00f3ria retratada no document\u00e1rio \u2015Hakani, enterrada viva: a hist\u00f3ria de uma sobrevivente\u2016, dirigido e produzido por David L. Cunningham.<\/p>\n<p>O infantic\u00eddio, nesses casos, est\u00e1 ligado ao significado socialmente que tem a vida entre grupos do Xingu, como os Suruwah\u00e1 e Yanomami: o nascer com alguma defici\u00eancia f\u00edsica ou mental, por sua incapacidade de ca\u00e7ar, pescar, plantar e se locomover com os demais membros do grupo, seria um peso para a sociedade e por isso a morte lhe seria melhor que uma vida de depend\u00eancia, de peso para os demais. Assim, por n\u00e3o se desenvolver no mesmo ritmo que as outras crian\u00e7as, Niawi teria uma vida limitada, sem condi\u00e7\u00f5es de viver conforme a defini\u00e7\u00e3o cultural de vida do povo suruwah\u00e1, tornando-se um peso.<\/p>\n<p>Os casos de infantic\u00eddio praticados entre grupos ind\u00edgenas brasileiros parecem ser majoritariamente (mas n\u00e3o exclusivamente) ligados ao segundo tipo, infantic\u00eddio assistido\/coagido: em geral, s\u00e3o fruto de coer\u00e7\u00e3o social, e algumas vezes envolvem a participa\u00e7\u00e3o de pais, av\u00f3s, tios e outros parentes e membros da comunidade, tendendo a alimentar um ciclo de abusos em que mulheres se v\u00eam inaptas a proteger a si mesmas e a seus filhos, de acordo com a classifica\u00e7\u00e3o de Margaret G. Spinelli (2002) &#8211; que identificou cinco categorias de infantic\u00eddio(neonatic\u00eddio; infantic\u00eddio assistido\/coagido; infantic\u00eddio relacionado a neglig\u00eancia; infantic\u00eddio relacionado a abuso; infantic\u00eddio relacionado \u00e0 mol\u00e9stia mental das m\u00e3es) e o perfil psicol\u00f3gicos das m\u00e3es, tra\u00e7ado por Michelle Oberman (2002). mas h\u00e1 tamb\u00e9m outras quest\u00f5es, como a super valoriza\u00e7\u00e3o do sexo masculino, apontada poe Feitosa, Tardivo e Carvalho como uma uma tr\u00eas causas principais de infantic\u00eddio em aldeias brasileiras (2006, p. 05)<\/p>\n<p>Dal Poz observa o sexismo como uma das maiores causas de infantic\u00eddio entre os suruwah\u00e1, observando um contexto que corresponde ao observado pela Routledge International Encyclopedia of Women: Global Women&#8217;s Issues and Knowledge (2000): de que o infantic\u00eddio atinge mais meninas, que s\u00e3o preteridas em sociedades patriarcais, patrilineares e patrilocais, em que o g\u00eanero feminino \u00e9 desvalorizado. De acordo com ele, uma forte oposi\u00e7\u00e3o contrap\u00f5e os homens \u00e0s mulheres, valorizando os desigualmente em muitos aspectos da vida social. Os filhos homens s\u00e3o, do ponto de vista de ambos os sexos, um motivo de leg\u00edtimo orgulho, de tal forma que a exig\u00eancia de t\u00ea-los \u00e9, por vezes, sustentada quase como uma obriga\u00e7\u00e3o moral, da qual n\u00e3o escapam sequer os forasteiros. De fato, um dos feiti\u00e7os que as mulheres mais temem \u00e9, precisamente, o que lhes interdita a concep\u00e7\u00e3o de var\u00f5es (Frank &amp; Porta, 1996 a: 38-9). E o pr\u00f3prio reconhecimento social do amadurecimento biol\u00f3gico de um indiv\u00edduo, isto \u00e9, a passagem \u00e0s categorias et\u00e1rias dogoawy, tem como par\u00e2metro o ciclo de vida dos seus descendentes masculinos10. Tudo isso faz com que, no extremo oposto dessa escala de valores, o alvo prim\u00e1rio do infantic\u00eddio seja do sexo feminino, o que \u00e9 quase uma regra no caso de bastardas. (dal Poz,sem data, p 95)<\/p>\n<p>Esses registros de infantic\u00eddio apontam para uma situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade social \u2013 que afeta povos ind\u00edgenas em geral, mas especialmente as mulheres num processo que decorre de \u2015&#8230;. uma rela\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica entre segmentos sociais diferenciados, onde a diferen\u00e7a entre eles se transforma em desigualdade\u2016 (GUIMAR\u00c3ES &amp; NOVAES, 1999). Isso se reflete no caso os suruwah\u00e1s, em que a subvaloriza\u00e7\u00e3o feminina vulnerabiliza meninas \u2013 expostas ao risco de morte &#8211; e suas m\u00e3es, pressionadas para conceberem filhos var\u00f5es, e para matar as crian\u00e7as culturalmente indesejadas, afinal \u2015a decis\u00e3o de matar a crian\u00e7a n\u00e3o \u00e9 da m\u00e3e, mas do grupo social e cultural ao qual ela pertence\u2016 (FEITOSA, TARDIVO e CARVALHO, 2006, p. 15).<\/p>\n<p>A ocorr\u00eancia de infantic\u00eddio entre os suruwah\u00e1s foi estudada por esses autores e apresentada em monografia orientada por Gabriele Cornelli e Volnei Garrafa e defendida no curso de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o Lato Sensu em Bio\u00e9tica da C\u00e1tedra UNESCO de Bio\u00e9tica da UNB (Universidade de Bras\u00edlia) em 2006, sendo por isso uma obra de grande import\u00e2ncia porque parte de referenciais da Bio\u00e9tica Intervencionista e do utilitarismo de Peter Singer, analisando e defendendo como moralmente correto o infantic\u00eddio em grupos ind\u00edgenas \u2013 posi\u00e7\u00e3o da qual nos distanciamos, pois adotamos a perspectiva da Bio\u00e9tica Intervencionista e os Direitos Humanos universais, e defendemos a preserva\u00e7\u00e3o da vida das crian\u00e7as ind\u00edgenas, de forma dialogada e respeitosa.<\/p>\n<p>Os autores partem do recorte de um caso espec\u00edfico, ocorrido por volta de setembro de 2005 e de proje\u00e7\u00e3o nacional, em que se evitou a morte de duas meninas Suruwah\u00e1, nascidas com pseudo-hermafroditismo e com retardo no desenvolvimento psicomotor. Duas crian\u00e7as, uma com dois anos e outra com um ano e cinco meses, foram retiradas da aldeia na companhia de familiares para tratamento m\u00e9dico, tendo sido diagnosticadas pelo Hospital das Cl\u00ednicas da USP (Universidade de S\u00e3o Paulo). Ambas s\u00e3o referidas por pseud\u00f4nimos, M\u00e3y e Yatakamin\u00e1. Foram utilizadas por eles revis\u00e3o bibliogr\u00e1fica sobre o tema e sua incid\u00eancia em grupos ind\u00edgenas e an\u00e1lise das falas registradas dos participantes da Audi\u00eancia P\u00fablica sobre Infantic\u00eddio Ind\u00edgena, ocorrida no Congresso Nacional em dezembro de 2005. Eles descrevem o processo de fabrica\u00e7\u00e3o cultural do corpo humano em grupos ind\u00edgenas, &#8211; e especificamente entre os suruwah\u00e1 \u2013 como um fator de especial import\u00e2ncia para que se entenda o infantic\u00eddio nesses grupos:<\/p>\n<p>Para muitos povos ind\u00edgenas o corpo humano \u00e9 resultado de uma \u2015fabrica\u00e7\u00e3o\u2016 cultural. H\u00e1 todo um processo, desde o nascimento at\u00e9 a puberdade, no qual o corpo vai recebendo as marcas da cultura, vai sendo culturalmente constru\u00eddo: \u2015O ser em fabrica\u00e7\u00e3o est\u00e1 \u2017nu, n\u00e3o usa pinturas, nem adornos\u20162. Pode-se da\u00ed supor que h\u00e1, inicialmente, um corpo n\u00e3o humano, ou, pelo menos, n\u00e3o completamente humanizado, passando a s\u00ea-lo por meio dos ritos de \u2015fabrica\u00e7\u00e3o\u2016 do mesmo. A pessoa tamb\u00e9m \u00e9 resultado de uma constru\u00e7\u00e3o da cultura (2006, p. 06)<\/p>\n<p>Assim, se uma crian\u00e7a n\u00e3o passa por esse processo n\u00e3o \u00e9 considerada humana \u2013 e meninas, deficiente f\u00edsicos ou filhas de m\u00e3e solteira t\u00eam status inferior \u00e0 dos meninos fisicamente perfeitos, por conta da cultura local, sexista. Esse fator \u2013 o sexismo do qual fala Dal Poz &#8211; tamb\u00e9m \u00e9 apontado por Feitosa, Tardivo e Carvalho como um fator cultural diretamente relacionado ao<br \/>\ninfantic\u00eddio:<\/p>\n<p>A rejei\u00e7\u00e3o de uma crian\u00e7a do sexo feminino sem pai reconhecido \u00e9, antes de tudo, uma resposta aos padr\u00f5es culturais de rela\u00e7\u00f5es sociais, onde uma crian\u00e7a sem pai \u00e9 inconceb\u00edvel como novo membro daquela sociedade. Por\u00e9m, quando se trata do nascimento de crian\u00e7a do sexo masculino sem pai, a sociedade lhe imp\u00f5e um status inferior em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s demais. A vida dela \u00e9 mantida unicamente em raz\u00e3o de utilidade do homem para a sociedade (2006, p. 11)<\/p>\n<p>Os autores defendem que \u2015ao decidir por um infantic\u00eddio, os Suruah\u00e1 est\u00e3o tomando uma decis\u00e3o \u00e9tica.. trata-se de uma atitude respons\u00e1vel e coerente. Um gesto de fidelidade \u00e0 cultura\u2016 (2006, p. 34), que n\u00e3o deve sofrer interven\u00e7\u00e3o \u2013 ainda que em nome dos Direitos Humanos, pois eles consideram que isto violaria a soberania do povo Suruwah\u00e1 e desrespeitaria seu sistema de justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Importante ressaltar que diversos documentos internacionais sobre Direitos Humanos, como a Declara\u00e7\u00e3o Universal sobre Bio\u00e9tica e Direitos Humanos da UNESCO, de 2005, definam valores \u00e9ticos comuns a todos, a ser universalmente respeitados, abrindo caminho para interven\u00e7\u00f5es respeitosas em situa\u00e7\u00f5es de viola\u00e7\u00e3o de direitos b\u00e1sicos.<\/p>\n<p>Entre os Kaiabi, recai sobre as m\u00e3es a for\u00e7a da tradi\u00e7\u00e3o, atingindo-as ainda mais fortemente: Helo\u00edsa Pagliaro registra que uma das causas do infantic\u00eddio \u00e9 o nascimento de crian\u00e7as que s\u00e3o fruto de adult\u00e9rio ou viol\u00eancia sexual: \u2015Entre os Kaiabi do Xingu &#8230; o sacrif\u00edcio de crian\u00e7as pode ocorrer em caso de adult\u00e9rio ou de viol\u00eancia sexual (Pagliaro, 2002, p. 20). Ou seja, \u00e0 viol\u00eancia do processo a que s\u00e3o submetidas as mulheres sexualmente violentadas,soma-se uma outra: a coer\u00e7\u00e3o para que as crian\u00e7as nascidas em decorr\u00eancia desse ato n\u00e3o vivam. Nos casos de adult\u00e9rio, a condena\u00e7\u00e3o imposta a ela inclui tamb\u00e9m a elimina\u00e7\u00e3o do fruto do que \u00e9 considerado um erro. \u00c9 um caso de infantic\u00eddio coagido, praticado por mulheres que j\u00e1 est\u00e3o em um ciclo de abuso tal que j\u00e1 n\u00e3o conseguem proteger nem a si nem a seus filhos (Em: Spinelli, 2002, p. 12)<br \/>\nEnfim, situa\u00e7\u00f5es de profundo sofrimento e dor, atingindo sobretudo as m\u00e3es, meninas, crian\u00e7as com necessidades especiais, os g\u00eameos, os filhos de uma uni\u00e3o indesej\u00e1vel. A fala de Kamiru \u2013 transcrita em parte acima \u2013 demonstra a luta interna das mulheres kamayur\u00e1s que de alguma forma n\u00e3o correspondem ao ideal proposto pelo seu grupo \u2013 principalmente mulheres solteiras que engravidam. A coer\u00e7\u00e3o social, aqui, \u00e9 exercida pela pr\u00f3pria fam\u00edlia, representada pela figura do pai dessas mulheres, que a despeito de suas l\u00e1grimas enterram os filhos que nascem de rela\u00e7\u00f5es n\u00e3o consagradas pela tradi\u00e7\u00e3o, rela\u00e7\u00f5es n\u00e3o permitidas. S\u00e3o portanto mulheres em processo interno de sofrimento, que se inserem no mesmo ciclo de abusos que seus filhos, mulheres que se v\u00eam incapacitadas de reagir. Vejamos na \u00edntegra:<\/p>\n<p>Eu j\u00e1 vi enterrar muita crian\u00e7a no Xingu. J\u00e1 vi isso acontecer muitas vezes. Eu acho isso errado porque eu gosto de crian\u00e7a. Eu, por exemplo, preciso de mais crian\u00e7as, pois eu s\u00f3 tenho dois filhos. Ao inv\u00e9s de enterrar, elas poderiam dar para mim. \u00c0s vezes eu tento tirar do buraco, mas \u00e9 dif\u00edcil. \u00c0s vezes a m\u00e3e quer a crian\u00e7a, mas a fam\u00edlia dela n\u00e3o deixa. \u00c9 muito dif\u00edcil. At\u00e9 hoje eu s\u00f3 consegui desenterrar um com vida, o Amal\u00e9. A m\u00e3e dele era solteira, ela chorou muito, mas o pai dela enterrou ele. Ele estava chorando dentro do buraco, a\u00ed minhas parentes foram me chamar. Eu entrei na casa, perguntei onde ele estava enterrado e tirei ele do buraco. Saiu sangue da boca e do nariz dele, mas ele viveu. Ele est\u00e1 doente, mas eu decidi cri\u00e1-lo. Agora ele \u00e9 meu filho. \u00c9 um menino bonito, n\u00e3o \u00e9 cachorro. \u00c9 errado enterrar. Teve tr\u00eas crian\u00e7as que eu tentei salvar, mas n\u00e3o deu tempo. Uma nasceu de noite e eu n\u00e3o vi. A minha tia tamb\u00e9m queria essa crian\u00e7a, gostava dela, mas quando chegou l\u00e1 a m\u00e3e dela j\u00e1 tinha quebrado o pesco\u00e7o do beb\u00ea. Quebraram o pesco\u00e7o depois enterraram. A outra eu ia tirar do buraco, n\u00e3o deu tempo porque eu estava do outro lado, tirando mandioca. Eu estava trabalhando e n\u00e3o vi. Disseram que ele tamb\u00e9m estava chorando dentro do buraco. Minha outra prima, a m\u00e3e do Mahuri, enterrou as cinco crian\u00e7as que nasceram antes dele. Ela era solteira, por isso tinha que enterrar. O funcion\u00e1rio salvou o Mahuri porque ficou com pena, \u00e9 um menino muito bonito, j\u00e1 est\u00e1 grande. A m\u00e3e dele viu ele em dezembro e achou ele bonito. Eu mesma n\u00e3o gosto que enterre, acho errado. Crian\u00e7a n\u00e3o \u00e9 cachorro.<\/p>\n<blockquote><p>N\u00f3s temos medo de nascer g\u00eameos, trig\u00eameos. Dizem que quando um paj\u00e9 faz feiti\u00e7o, podem nascer at\u00e9 sete crian\u00e7as. Por isso as m\u00e3es t\u00eam medo. Mas eu acho errado matar. Eu j\u00e1 falei isso para as mulheres de l\u00e1. A crian\u00e7a fica chorando dentro do buraco, crian\u00e7a pequena custa muito a morrer. Se eu ver no buraco eu tiro. (Em: SUZUKI, 2007, P. 02)<\/p><\/blockquote>\n<p>L\u00edgia Simonian (2001) destaca a contradi\u00e7\u00e3o vivida pelas mulheres Amundawa e Urueu-Wau-Wau, ao comentar o significado do infantic\u00eddio entre esses povos. A essas mulheres cabe manter e afirmar a tradi\u00e7\u00e3o de seus povos, o que envolve o dever de matar seus filhos que n\u00e3o se enquadram no padr\u00e3o aceito em suas tribos, reproduzindo nesse processo a ideologia de suas culturas em rela\u00e7\u00e3o aos pap\u00e9is a ser exercidos pelas mulheres. O ato de matar os filhos que n\u00e3o se encaixem no padr\u00e3o aceit\u00e1vel significa reafirmar suas identidades como mulheres Amundawa e Urueu-Wau-Wau, reproduzindo a ideologia de suas culturas em rela\u00e7\u00e3o ao feminino \u2013 \u00e9 uma coer\u00e7\u00e3o cultural, social, que as leva a a\u00e7\u00f5es como essas como forma de afirma\u00e7\u00e3o de seu pertencimento e sua identidade. S\u00e3o mulheres que carregam a contradi\u00e7\u00e3o de afirmar suas identidades \u00e9tnicas para a sociedade externa, e de n\u00e3o se deixarem assimilar \u2013 o que envolver reafirmar suas culturas e suas tradi\u00e7\u00f5es, inclusive de infantic\u00eddio. Essas mulheres vivem um processo de deteriora\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica devido a doloridos processos sociais de explora\u00e7\u00e3o, a dificuldade do acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o e \u00e0 sa\u00fade. O resultado \u00e9 sintetizado na fala de Rita Segato (2001, p. 09): \u2015Esse costume [o infantic\u00eddio] produz grande sofrimento na m\u00e3e, sendo esta, portanto, tamb\u00e9m v\u00edtima da viol\u00eancia desta pr\u00e1tica que, contudo, \u00e9 uma das tradi\u00e7\u00f5es do grupo\u2016.<\/p>\n<p>Mas tamb\u00e9m outros membros do grupo sofrem com o processo, como pais e av\u00f3s. Aisanan Paltu Kamaiur\u00e1, tamb\u00e9m fala da dor e do sofrimento pelo qual ele e sua mulher passaram e ainda passam por terem matado um de seus filhos g\u00eameos, contra a vontade do casal. Ele relatou sua sensa\u00e7\u00e3o de desamparo durante audi\u00eancia p\u00fablica sobre o infantic\u00eddio em \u00e1reas ind\u00edgenas:<\/p>\n<blockquote><p>&#8230; Na hora em que a crian\u00e7a nasceu, eu levei um choque, fiquei com vergonha de minha comunidade. O que meu pai fez? Ele me acalmou. N\u00e3o foi s\u00f3 comigo que aconteceu isso. No Xingu j\u00e1 aconteceu com v\u00e1rias etnias \u2014 no Alto, no M\u00e9dio e no Baixo Xingu. Meu pai disse: \u201cEsse \u00e9 o normal. Seus 2 filhos n\u00e3o v\u00e3o ser enterrados. Vou l\u00e1, vou conversar com a m\u00e3e, o pai. Eles v\u00e3o segurar\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>Mas outros j\u00e1 haviam sido enterrados, porque isso faz parte da cultura. Mas hoje est\u00e3o mudando, porque, como disse, h\u00e1 poucas pessoas. Por isso, hoje est\u00e3o criando essas crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Aqui, podemos ver o processo de coer\u00e7\u00e3o social da qual fala Spinelli vitimizando tamb\u00e9m o pai, num processo de perpetua\u00e7\u00e3o do sofrimento, como podemos ver no relato dele, acima.<\/p>\n<p>Importante para entender o processo que leva \u00e0 pr\u00e1tica do infantic\u00eddio e morte intencional de crian\u00e7as \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o social do conceito de vida, e sua rela\u00e7\u00e3o com vida plena, integral, com qualidade. Segundo Feitosa, Tardivo e Carvalho (2006), os povos do Xingu consideram que ningu\u00e9m deve depender do outro para viver. Assim, \u2015a decis\u00e3o de matar a crian\u00e7a n\u00e3o \u00e9 da m\u00e3e, mas do grupo social e cultural ao qual ela pertence\u2016 (p. 15). E a defini\u00e7\u00e3o social de vida, aqui, \u00e9 intrinsecamente ligada \u00e0 quest\u00e3o de qualidade de vida. Assim, crian\u00e7as deficientes n\u00e3o teriam condi\u00e7\u00f5es de levar uma vida plena, que valesse a pena ser vivida, assim como crian\u00e7as g\u00eameas ou muito pr\u00f3ximas &#8211; trabalho dobrado na busca de alimenta\u00e7\u00e3o e na prote\u00e7\u00e3o frente aos perigos da floresta, dificultando a vida dos pais e da comunidade, al\u00e9m de ter um significado m\u00edstico negativo para alguns grupos, como os Kamayur\u00e1 (conforme vimos na fala de Kamiru). Para muitos povos, a escassez de terra para o plantio \u00e9 fator desencadeador do infantic\u00eddio como forma de controle populacional,e da morte de g\u00eameos \u2013 como no caso de Aisanan Paltu Kamayur\u00e1.<\/p>\n<p>(cap\u00edtulo do trabalho &#8220;Enfrentando o infantic\u00eddio: bio\u00e9tica, direitos humanos e qualidade de vida das crian\u00e7as ind\u00edgenas&#8221; da fil\u00f3sofa e educadora Val\u00e9ria Trigueiro Adinolfi)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O infantic\u00eddio \u00e9 pr\u00e1tica tradicional em muitos grupos ind\u00edgenas brasileiros, tendo sido apontado pelo coordenador da Funasa (\u00f3rg\u00e3o respons\u00e1vel pelos programas de sa\u00fade ind\u00edgena) em 2007, Ramiro Teixeira, uma das principais causas da mortalidade infantil entre os Yanomami, segundo o jornal Folha de Boa Vista em 24 de outubro de 2007.<\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":1661,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[25],"tags":[30,20,44,45,46,38],"class_list":["post-1034","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","tag-imprensa","tag-infanticidio","tag-kamayura","tag-suruwaha","tag-valeria-trigueiro-adinolfi","tag-yanomami"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.atini.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1034","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.atini.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.atini.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.atini.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.atini.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1034"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.atini.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1034\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1142,"href":"https:\/\/www.atini.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1034\/revisions\/1142"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.atini.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1661"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.atini.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1034"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.atini.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1034"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.atini.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1034"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}