{"id":1036,"date":"2008-09-30T15:26:00","date_gmt":"2008-09-30T18:26:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.atini.org.br\/meu-filho-tinha-um-irmo-gmeo\/"},"modified":"2015-05-20T07:20:44","modified_gmt":"2015-05-20T10:20:44","slug":"meu-filho-tinha-um-irmo-gmeo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.atini.org.br\/en\/meu-filho-tinha-um-irmo-gmeo\/","title":{"rendered":"Meu filho tinha um irm\u00e3o g\u00eameo"},"content":{"rendered":"<p><strong>Depoimento de Paltu Kamayura<\/strong><\/p>\n<p>Esse meu filho era g\u00eameo, tinha dois. Eles enterraram o outro. A enfermeira n\u00e3o me avisou que ela tinha g\u00eameos. S\u00f3 na hora que nasceram as crian\u00e7as, \u00e0s duas horas da madrugada.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Eu estava na minha casa e a minha esposa estava na casa da m\u00e3e dela. A\u00ed, depois que nasceu, a pessoa veio falar pr\u00e1 mim que eram duas crian\u00e7as. Eu levei um susto, n\u00e9? Eles me avisaram que iam enterrar as duas. A\u00ed eu falei que n\u00e3o, que eu precisava pegar pelo menos uma delas. Mas a fam\u00edlia n\u00e3o queria que eu pegasse nem uma das crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Eu insisti e a\u00ed meu pai foi l\u00e1 para segurar uma das crian\u00e7as. Eles pegaram uma e enterraram a outra. Hoje a crian\u00e7a est\u00e1 aqui comigo, j\u00e1 tem sete meses, t\u00e1 gordinho. Quando eles enterram crian\u00e7a, o pai e a m\u00e3e sentem falta. Como \u00e9 meu caso mesmo. At\u00e9 hoje eu n\u00e3o esque\u00e7o ainda. Porque eu estou vendo o menino, o crescimento dele, a\u00ed eu penso no outro tamb\u00e9m, poxa!<\/p>\n<p>Se eu tivesse algu\u00e9m que me ajudasse, eu poderia criar as duas crian\u00e7as&#8230; eu falo isso. A m\u00e3e mesmo falou pr\u00e1 mim outro dia \u201cPoxa! O pessoal enterrou nosso filho, agora n\u00f3s s\u00f3 estamos com um.\u201d \u00c9 muito triste, a gente n\u00e3o consegue esquecer. As pessoas que estudam sobre a cultura do \u00edndio, como antrop\u00f3logos e indigenistas, eles pensam que os \u00edndios v\u00e3o viver assim pr\u00e1 sempre, como era antes. Mas hoje j\u00e1 est\u00e1 mudando. Cada vez mais o pensamento dos jovens, da gera\u00e7\u00e3o de hoje, vai mudando.<\/p>\n<p>O meu pensamento mesmo, n\u00e3o \u00e9 como antes. N\u00e3o \u00e9 como o pensamento dos antrop\u00f3logos que estudaram a cultura, que dizem \u201cdeixa ele viver assim, isso \u00e9 a cultura deles\u201d. N\u00e3o, porque a cultura n\u00e3o p\u00e1ra, ela anda. O pensamento tamb\u00e9m anda, igualzinho a cultura. Por isso \u00e9 que hoje a gente est\u00e1 querendo pegar todas essas crian\u00e7as, at\u00e9 as que t\u00eam defeito. Elas s\u00e3o gente, n\u00e3o s\u00e3o animal, n\u00e3o s\u00e3o filho de porco ou de tatu. S\u00e3o gente mesmo, sa\u00edram de uma pessoa. Esse \u00e9 o meu pensamento. Isso quem vai decidir \u00e9 a gente mesmo. Somos n\u00f3s que estamos procurando ajuda para criar essas crian\u00e7as. N\u00f3s estamos procurando apoio, n\u00f3s temos que conversar entre n\u00f3s mesmos, a\u00ed, atrav\u00e9s dessa conversa, o governo tem que nos atender.<\/p>\n<p>Muita gente j\u00e1 t\u00e1 procurando ajuda para resolver esse problema. Meu sobrinho mesmo, o Marcelo, ele trabalha na \u00e1rea de sa\u00fade. Ele \u00e9 auxiliar de enfermagem e est\u00e1 indo de aldeia em aldeia, conversando com os caciques. Ele est\u00e1 conversando, falando para n\u00e3o enterrar mais crian\u00e7a que nasce com defici\u00eancia, g\u00eameos, crian\u00e7a que n\u00e3o tem pai. N\u00e3o \u00e9 para enterrar mais. G\u00eameos, \u00e9 para pegar, \u00e9 para criar, porque se a gente ficar enterrando as crian\u00e7as, nossa popula\u00e7\u00e3o nunca vai aumentar. Essa \u00e9 a nossa preocupa\u00e7\u00e3o hoje.\u201d<\/p>\n<p><strong>Foto:<\/strong> <span id=\"caption\">O ritual do Jawari. Foto: Carmen Junqueira, 1972. <\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Depoimento de Paltu Kamayura Esse meu filho era g\u00eameo, tinha dois. Eles enterraram o outro. A enfermeira n\u00e3o me avisou que ela tinha g\u00eameos. 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