{"id":1045,"date":"2007-10-05T15:59:00","date_gmt":"2007-10-05T18:59:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.atini.org.br\/correio-braziliense\/"},"modified":"2019-01-07T19:19:08","modified_gmt":"2019-01-07T22:19:08","slug":"a-segunda-vida-de-hakani","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.atini.org.br\/en\/a-segunda-vida-de-hakani\/","title":{"rendered":"A segunda vida de Hakani"},"content":{"rendered":"<p>\u00cdndia suruarr\u00e1 rejeitada pela fam\u00edlia escapa da morte com ajuda de mission\u00e1rios e ganha um novo lar<\/p>\n<p>MARCELO ABREU DA EQUIPE DO CORREIO<\/p>\n<p>Nas olimp\u00edadas da escola \u2014 onde estuda desde abril do ano passado \u2014, ela brinca, joga queimada e adora corrida. D\u00e1 n\u00f3 em pingo d\u2019\u00e1gua. No recreio, n\u00e3o dispensa um peda\u00e7o de bolo de chocolate com morango. Na Feira Cultural, quando a turma desenvolveu o projeto Salve a Amaz\u00f4nia, sob o comando da professora Deise Boechat, ela fez o papel de uma das tr\u00eas indiazinhas na pe\u00e7a Tutu, o menino \u00edndio. Aos 12 anos, na 2\u00aa s\u00e9rie, \u00e9 uma das alunas mais animadas. Contagia pelo sorriso espont\u00e2neo e est\u00e1 sempre disposta a ajudar os coleguinhas. Camila, de 8 anos, \u00e9 sua melhor amiga. As duas fazem as tarefas juntas, uma conta hist\u00f3ria para outra, uma escuta a outra. Se entendem at\u00e9 no sil\u00eancio. &#8220;Ela \u00e9 divertida, engra\u00e7ada e uma amiga muito legal. Adora o boneco Tutu, fez at\u00e9 roupa pra ele&#8221;, confidencia Camila.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 a melhor e mais emocionante parte da hist\u00f3ria da pouca vida de Ana Hakani, que venceu os horrores da rejei\u00e7\u00e3o e a morte sucessivas vezes. At\u00e9 completar 5 anos, ela simplesmente n\u00e3o existia. N\u00e3o era considerada gente. A menina \u00e9 \u00edndia da tribo Suruarr\u00e1, etnia semi-isolada no sul da Amaz\u00f4nia, onde vivem atualmente apenas 141 pessoas. Era a quinta e \u00fanica filha de Dihiji, um dos maiores ca\u00e7adores da tribo, e Bujini, mulher forte e boa parideira.<\/p>\n<p>O nascimento do beb\u00ea foi comemorado. Teve canto e dan\u00e7a na selva. Teve corpos pintados em ritual sagrado. Afinal, era a primeira menina da fam\u00edlia. Como sorria muito, a m\u00e3e n\u00e3o hesitou em dar-lhe o nome de Hakani \u2014 que significa sorriso na l\u00edngua falada pelos suruarr\u00e1s. Mas, meses depois do parto, Bujini come\u00e7ou a perceber que Hakini era diferente. E a comparou ao irm\u00e3o, Niawi, um ano mais velho. O menino n\u00e3o andava, n\u00e3o falava e enfrentava o preconceito de parte da comunidade, que n\u00e3o o aceitava.<\/p>\n<p>Na cren\u00e7a da tribo, o menino era filho de um esp\u00edrito mau, que sem permiss\u00e3o da m\u00e3e, a teria engravidado durante o sono. Os suruarr\u00e1s acreditam que crian\u00e7a com algum tipo de defici\u00eancia n\u00e3o \u00e9 ser humano. E o fim deles \u00e9 a morte. Sem apelos, sem condescend\u00eancia. Sem ritual. E assim, em meio ao temor da m\u00e3e e do pai com o destino da filha, Hakani completara meses de vida. A defici\u00eancia neuromotora ficara mais vis\u00edvel. Perto dos 2 anos, a menina foi, definitivamente, condenada \u00e0 morte. Com ela, o irm\u00e3o Niawi. Cabia aos pais a execu\u00e7\u00e3o. Com as crian\u00e7as, a morte \u00e9 selada com um gole de timb\u00f3 \u2014 esp\u00e9cie de ch\u00e1, feito do veneno de um cip\u00f3.<br \/>\nOs pais, por\u00e9m, n\u00e3o tiveram coragem de dar o ch\u00e1 venenoso para os dois filhos. Em vez disso, eles mesmos tomaram. E morreram agonizando. Deixaram cinco irm\u00e3os \u00f3rf\u00e3os. O mais velho deles, Aruwaji, ent\u00e3o com 15 anos, virou o respons\u00e1vel pela fam\u00edlia. E seguiu, influenciado pela tribo, com a miss\u00e3o de matar os dois irm\u00e3os deficientes. Tentou matar os dois a pauladas na cabe\u00e7a. Fez uma cova rasa e os jogou ali, desmaiados. Enquanto jogava terra, Hakani chorou. Sem reagir, Niawi foi enterrado ainda vivo. H\u00e1 quem tenha escutado, horas depois, seu choro debaixo da terra. Ningu\u00e9m teve coragem de salv\u00e1-lo.<\/p>\n<p><strong>Sofrimento sem fim<\/strong><br \/>\nNingu\u00e9m \u2014 nem tios, nem av\u00f3s \u2014 quis cuidar da menina. Bibi, um irm\u00e3o do meio, ent\u00e3o com 9 anos, compadeceu-se com o sofrimento de Hakani. E passou a cuidar dela, mesmo contra toda a comunidade e os pr\u00f3prios parentes. Dava-lhe banho e comida. Certa vez, o av\u00f4 materno flechou a neta, entre o ombro e o peito. Hakani sobreviveu, mais uma vez. Aruawaji, o irm\u00e3o mais velho, passou a ser hostilizado pela tribo por n\u00e3o ter conseguido mat\u00e1-la. Transtornado, tamb\u00e9m tomou o timb\u00f3. O av\u00f4 tamb\u00e9m fez o mesmo.<\/p>\n<p>E assim, a fam\u00edlia foi se dizimando. Entres os suruarr\u00e1s, o \u00edndice de suic\u00eddio \u00e9 comum, e considerado o mais alto entre todas as etnias do pa\u00eds. Para eles, \u00e9 o caminho que os leva ao encontro com seus ancestrais. Por rejeitar qualquer decad\u00eancia f\u00edsica, sobretudo a de nascen\u00e7a, o infantic\u00eddio \u00e9 tamb\u00e9m um ato at\u00e9 her\u00f3ico. Hoje, na fam\u00edlia de Hakani, o \u00fanico vivo \u00e9 Bibi, com 18 anos, aquele que, ao modo dele, cuidou da irm\u00e3 e n\u00e3o a deixou morrer.<\/p>\n<p>Aos 5 anos, Hakani n\u00e3o passava de 68cm e pesava cerca de 7kg. Vivia escondida. N\u00e3o andava, n\u00e3o falava, n\u00e3o se comunicava. Nem a l\u00edngua da sua tribo ela dominava, j\u00e1 que ningu\u00e9m a enxergava, exceto Bibi. Em 2000, um casal de mission\u00e1rios presenciou o drama de Hakani. E come\u00e7ou uma verdadeira luta para salv\u00e1-la.<\/p>\n<p>O paulista Edson Suzuki, hoje com 45 anos, e a mulher M\u00e1rcia, carioca, 44 , estavam na regi\u00e3o desde 1986. Ling\u00fcista, o casal estudava os \u00edndios suruarr\u00e1s. Como sabiam falar a l\u00edngua deles, fizeram os primeiros contatos com os parentes de Hakani. A av\u00f3 materna lhes disse: &#8220;N\u00e3o queremos nem vamos cuidar dessa menina&#8221;.<\/p>\n<p>Com permiss\u00e3o da Funda\u00e7\u00e3o Nacional do \u00cdndio (Funai) e da Funda\u00e7\u00e3o Nacional de Sa\u00fade (Funasa), o casal teve permiss\u00e3o para levar Hakini \u00e0 primeira consulta, em Porto Velho. L\u00e1, depois de alguns meses de exames, o primeiro diagn\u00f3stico: o &#8220;esp\u00edrito mau&#8221; de Hakani (e do irm\u00e3ozinho enterrado vivo) era causado pelo hipotireoidismo cong\u00eanito, que, dentre outras coisas, afeta a produ\u00e7\u00e3o de horm\u00f4nios do crescimento. De Porto Velho, por recomenda\u00e7\u00e3o dos especialistas, Edson e M\u00e1rcia levaram a menina para o Hospital das Cl\u00ednicas de Ribeir\u00e3o Preto (SP), onde o tratamento foi mais longo e todas as causas checadas.<\/p>\n<p><strong>Ado\u00e7\u00e3o plena<\/strong><br \/>\nAos seis anos, com medica\u00e7\u00e3o e alimenta\u00e7\u00e3o corretas, Hakani come\u00e7ou a falar, andar, engordar e crescer. Aos poucos, se transformava. Mas havia um problema que afligia o casal. E depois, Hakani voltaria \u00e0 tribo que a rejeitara? Come\u00e7ou, ent\u00e3o, a peregrina\u00e7\u00e3o pela guarda da menina. Depois de cinco anos lutando no Juizado da Inf\u00e2ncia de Manaus, o juiz finalmente lhes concedeu a ado\u00e7\u00e3o. Edson e M\u00e1rcia tiveram a permiss\u00e3o de cham\u00e1-la de filha. &#8220;Na hora em que a peguei no colo pela primeira vez, me senti m\u00e3e. Chorei muito. A vida de uma crian\u00e7a n\u00e3o tem pre\u00e7o&#8221;, reflete M\u00e1rcia.<\/p>\n<p>A indiazinha suruarr\u00e1 recebeu o nome de Ana Hakani dos Santos Suzuki. Ganhou finalmente pai, m\u00e3e. \u00c9 a \u00fanica filha do casal de mission\u00e1rios, que, pelas constantes viagens \u00e0s tribos ind\u00edgenas, sempre adiava o desejo do primeiro filho. No ano passado, a fam\u00edlia desembarcou em Bras\u00edlia. Hakani foi matriculada no Leonardo da Vinci, na 914 Norte. L\u00e1, recebeu o apoio, a acolhida e aceita\u00e7\u00e3o incondicionais da dire\u00e7\u00e3o, dos professores e, principalmente, dos novos amiguinhos.<br \/>\nFaz nata\u00e7\u00e3o, acompanhamento com uma fonoaudi\u00f3loga e terapia. Hoje, com a medica\u00e7\u00e3o, Hakani mede 1,23m e pesa 35kg. Encantado com a filha, Edson se penitencia: &#8220;Hoje, s\u00f3 sinto tristeza por n\u00e3o ter tido a coragem de fazer isso antes. Ela viveu tr\u00eas anos abandonada e sofrendo todos os horrores. E ainda tem gente que defende a tese de que ela devia permanecer na sua tribo, que n\u00e3o t\u00ednhamos o direito de tir\u00e1-la de l\u00e1&#8221;.<\/p>\n<p>Na escola, a professora Deise Boechat, 42, se emociona: &#8220;Hakani foi um presente do c\u00e9u para todos n\u00f3s. Ela s\u00f3 veio somar&#8221;. As amigas de classe Ana Carolina Heinen e Renata Pomelli, ambas de 7 anos, s\u00e3o f\u00e3s de Hakani. &#8220;Ela \u00e9 bem legal&#8221;, diz Ana. Renata emenda: &#8220;A gente brinca muito no recreio&#8221;. Camila de Oliveira Zem, 8, a favorita amiga, ensina, dando um chute a qualquer sinal de preconceito: &#8220;Ela \u00e9 igualzinha a gente. Eu nem lembro que ela \u00e9 \u00edndia&#8221;.<\/p>\n<p>Hakani escuta a amiga falar. Comovida, devolve: &#8220;Ela \u00e9 minha melhor amiga aqui na escola&#8221;. De m\u00e3os dadas, as duas saem correndo pelos corredores. Hakani est\u00e1 visivelmente feliz. H\u00e1 muito para conversar, brincar, aprontar. H\u00e1 muito para viver. Essa \u00e9 uma hist\u00f3ria onde quase tudo era improv\u00e1vel. At\u00e9 mesmo o direito de viver.<\/p>\n<div align=\"justify\"><em>Mat\u00e9ria da Hakani no Correio Braziliense<\/em>\u00a0&#8211;\u00a0<em>de Marcelo Abreu<\/em><\/div>\n<div align=\"justify\"><em>Foto: Breno Fortes<\/em><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00cdndia suruarr\u00e1 rejeitada pela fam\u00edlia escapa da morte com ajuda de mission\u00e1rios e ganha um novo lar MARCELO ABREU DA EQUIPE DO CORREIO Nas olimp\u00edadas da escola \u2014 onde estuda desde abril do ano passado \u2014, ela brinca, joga queimada e adora corrida. D\u00e1 n\u00f3 em pingo d\u2019\u00e1gua. 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