{"id":1046,"date":"2007-08-15T15:49:00","date_gmt":"2007-08-15T18:49:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.atini.org.br\/revista-veja\/"},"modified":"2019-01-08T10:42:06","modified_gmt":"2019-01-08T13:42:06","slug":"revista-veja","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.atini.org.br\/en\/revista-veja\/","title":{"rendered":"Revista Veja"},"content":{"rendered":"<p><strong>Muitas tribos brasileiras ainda matam crian\u00e7as \u2013 <\/strong><strong>e a Funai nada faz para impedir o infantic\u00eddio<\/strong><\/p>\n<p>A \u00edndia Hakani, em dois momentos. Ao lado, abra\u00e7a a m\u00e3e adotiva, M\u00e1rcia, no seu anivers\u00e1rio de 12 anos. Acima, aos 5, em sua tribo: altura e peso de 7 meses. (Photoon\/Arquivo Pessoal)<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>A fotografia acima foi tirada numa festa de anivers\u00e1rio realizada em 7 de julho em Bras\u00edlia. Para comemorar os seus 12 anos, a menina Hakani pediu a sua m\u00e3e adotiva, M\u00e1rcia Suzuki, que decorasse a mesa do bolo com figuras do desenho animado Happy Feet. O presente de que ela mais gostou foi um boneco de Mano, protagonista do filme. Mano \u00e9 um ping\u00fcim que n\u00e3o sabe cantar, ao contr\u00e1rio de seus companheiros. Em vez de cantar, dan\u00e7a. Por isso, \u00e9 rejeitado por seus pais. A hist\u00f3ria de Hakani tamb\u00e9m traz as marcas de uma rejei\u00e7\u00e3o. Nascida em 1995, na tribo dos \u00edndios suruuarr\u00e1s, que vivem semi-isolados no sul do Amazonas, Hakani foi condenada \u00e0 morte quando completou 2 anos, porque n\u00e3o se desenvolvia no mesmo ritmo das outras crian\u00e7as. Escalados para ser os carrascos, seus pais prepararam o timb\u00f3, um veneno obtido a partir da macera\u00e7\u00e3o de um cip\u00f3. Mas, em vez de cumprirem a senten\u00e7a, ingeriram eles mesmos a subst\u00e2ncia.<\/p>\n<p>O duplo suic\u00eddio enfureceu a tribo, que pressionou o irm\u00e3o mais velho de Hakani, Aruaji, ent\u00e3o com 15 anos, a cumprir a tarefa. Ele atacou-a com um porrete. Quando a estava enterrando, ouviu-a chorar. Aruaji abriu a cova e retirou a irm\u00e3. Ao ver a cena, Kimaru, um dos av\u00f4s, pegou seu arco e flechou a menina entre o ombro e o peito. Tomado de remorso, o velho suruuarr\u00e1 tamb\u00e9m se suicidou com timb\u00f3. A flechada, no entanto, n\u00e3o foi suficiente para matar a menina. Seus ferimentos foram tratados \u00e0s escondidas pelo casal de mission\u00e1rios protestantes M\u00e1rcia e Edson Suzuki, que tentavam evangelizar os suruuarr\u00e1s. Eles apelaram \u00e0 tribo para que deixasse Hakani viver. A menina, ent\u00e3o, passou a dormir ao relento e comer as sobras que encontrava pelo ch\u00e3o. &#8220;Era tratada como um bicho&#8221;, diz M\u00e1rcia. Muito fraca, ela j\u00e1 contava 5 anos quando a tribo autorizou os mission\u00e1rios a lev\u00e1-la para o Hospital das Cl\u00ednicas de Ribeir\u00e3o Preto, em S\u00e3o Paulo. Com menos de 7 quilos e 69 cent\u00edmetros, Hakani tinha a complei\u00e7\u00e3o de um beb\u00ea de 7 meses. Os m\u00e9dicos descobriram que o atraso no seu desenvolvimento se devia ao hipotireoidismo, um dist\u00farbio contorn\u00e1vel por meio de rem\u00e9dios.<\/p>\n<p><strong><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-926 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.atini.org.br\/wp-content\/uploads\/2007\/08\/veja00-300x206.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"206\" srcset=\"https:\/\/www.atini.org.br\/wp-content\/uploads\/2007\/08\/veja00-300x206.jpg 300w, https:\/\/www.atini.org.br\/wp-content\/uploads\/2007\/08\/veja00.jpg 400w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/strong><\/p>\n<p>M\u00e1rcia e Edson Suzuki conseguiram adotar a indiazinha. Gra\u00e7as a seu empenho, o hipotireoidismo foi controlado, mas os maus-tratos e a desnutri\u00e7\u00e3o deixaram seq\u00fcelas. Aos 12 anos, Hakani mede 1,20 metro, altura equivalente \u00e0 de uma crian\u00e7a de 7 anos. Como os suruuarr\u00e1s a ignoravam, s\u00f3 viria a aprender a falar na conviv\u00eancia com os brancos. Ela pronunciou as primeiras palavras aos 8 anos. Hoje, tem problemas de dic\u00e7\u00e3o, que tenta superar com a ajuda de uma fonoaudi\u00f3loga. Um psic\u00f3logo recomendou que ela n\u00e3o fosse matriculada na escola enquanto n\u00e3o estivesse emocionalmente apta a enfrentar outras crian\u00e7as. Hakani foi alfabetizada em casa pela m\u00e3e adotiva. Neste ano, o psic\u00f3logo autorizou seu ingresso na 2\u00aa s\u00e9rie do ensino fundamental.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria da ado\u00e7\u00e3o \u00e9 um cap\u00edtulo \u00e0 parte. Mostra como o relativismo pode ser perverso. Logo que retiraram Hakani da aldeia, os Suzuki solicitaram autoriza\u00e7\u00e3o judicial para adot\u00e1-la. O processo ficou cinco anos emperrado na Justi\u00e7a do Amazonas, porque o antrop\u00f3logo Marcos Farias de Almeida, do Minist\u00e9rio P\u00fablico, deu um parecer negativo \u00e0 ado\u00e7\u00e3o. No seu laudo, o antrop\u00f3logo acusou os mission\u00e1rios de amea\u00e7ar a cultura suruuarr\u00e1 ao impedir o assassinato de Hakani. Disse que semelhante barbaridade era &#8220;uma pr\u00e1tica cultural repleta de significados&#8221;.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que acredita o antrop\u00f3logo Almeida, os \u00edndios da tribo n\u00e3o decidem sempre da mesma forma. Em 2003, a suruuarr\u00e1 Muwaji deu \u00e0 luz uma menina, Iganani, com paralisia cerebral. A aldeia exigiu que ela fosse morta. Muwaji negou-se a execut\u00e1-la e conseguiu que a tribo autorizasse seu tratamento em Manaus. M\u00e9dicos da capital amazonense conclu\u00edram que o melhor seria encaminhar Iganani para Bras\u00edlia. Antes disso, por\u00e9m, foi necess\u00e1rio driblar a Funda\u00e7\u00e3o Nacional do \u00cdndio (Funai). O \u00f3rg\u00e3o vetou sua transfer\u00eancia com o argumento de que um \u00edndio isolado n\u00e3o poderia viver na civiliza\u00e7\u00e3o. S\u00f3 voltou atr\u00e1s quando o caso foi denunciado \u00e0 imprensa. Agora, Iganani passa tr\u00eas meses por ano em Bras\u00edlia. Aos 4 anos, consegue caminhar com o aux\u00edlio de um andador. Estaria melhor se a Funai permitisse que ela morasse continuamente em Bras\u00edlia. H\u00e1 dois anos, os suruuarr\u00e1s voltaram a enfrentar uma m\u00e3e que se recusava a matar a filha hermafrodita, Tititu. A tribo consentiu que a menina fosse tratada por brancos. Em S\u00e3o Paulo, ela passou por uma cirurgia corretora. Sem a anomalia, Tititu foi finalmente aceita pela aldeia.<\/p>\n<p>O infantic\u00eddio \u00e9 comum em determinadas esp\u00e9cies animais. \u00c9 uma forma de selecionar os mais aptos. Quando t\u00eam g\u00eameos, os sag\u00fcis matam um dos filhotes. Chimpanz\u00e9s e gorilas abandonam as crias defeituosas. Tamb\u00e9m era uma pr\u00e1tica recorrente em civiliza\u00e7\u00f5es de s\u00e9culos atr\u00e1s. Em Esparta, cidade-estado da Gr\u00e9cia antiga que primava pela organiza\u00e7\u00e3o militar de sua sociedade, o infantic\u00eddio servia para eliminar aqueles meninos que n\u00e3o renderiam bons soldados. Um dos seus mais brilhantes generais, Le\u00f4nidas entrou para a hist\u00f3ria por ter liderado a resist\u00eancia her\u00f3ica dos Trezentos de Esparta no desfiladeiro de Term\u00f3pilas, diante do Ex\u00e9rcito persa, em 480 a.C. Segundo o historiador Her\u00f3doto, Le\u00f4nidas teria sido salvo do sacrif\u00edcio apesar de ter um pequeno defeito em um dos dedos da m\u00e3o porque o sacerdote encarregado da triagem pressentiu o grande futuro que o beb\u00ea teria.<\/p>\n<p>Entre os \u00edndios brasileiros, o infantic\u00eddio foi sendo abolido \u00e0 medida que se aculturavam. Mas ele resiste, principalmente, em tribos remotas \u2013 e com o apoio de antrop\u00f3logos e a toler\u00e2ncia da Funai. \u00c9 praticado por, no m\u00ednimo, treze etnias nacionais. Um dos poucos levantamentos realizados sobre o assunto \u00e9 da Funda\u00e7\u00e3o Nacional de Sa\u00fade. Ele contabilizou as crian\u00e7as mortas entre 2004 e 2006 apenas pelos ianom\u00e2mis: foram 201. Mesmo \u00edndios mais pr\u00f3ximos dos brancos ainda praticam o infantic\u00eddio. Os camaiur\u00e1s, que vivem em Mato Grosso, adoram exibir o lado mais vistoso de sua cultura. Em 2005, a tribo recebeu dinheiro da BBC para permitir que lutadores de jud\u00f4 e jiu-j\u00edtsu disputassem com seus jovens guerreiros a luta huka-huka, parte integrante do ritual do Quarup, em frente \u00e0s c\u00e2meras da TV inglesa. Um ano antes, por\u00e9m, sem alarde, os camaiur\u00e1s enterraram vivo o menino Amal\u00e9, nascido de uma m\u00e3e solteira. Ele foi desenterrado \u00e0s escondidas por outra \u00edndia, que, depois de muita insist\u00eancia, teve permiss\u00e3o dos chefes da tribo para adot\u00e1-lo.<\/p>\n<p>H\u00e1 tr\u00eas meses, o deputado Henrique Afonso (PT-AC) apresentou um projeto de lei que prev\u00ea pena de um ano e seis meses para o &#8220;homem branco&#8221; que n\u00e3o intervier para salvar crian\u00e7as ind\u00edgenas condenadas \u00e0 morte. O projeto classifica a toler\u00e2ncia ao infantic\u00eddio como omiss\u00e3o de socorro e afirma que o argumento de &#8220;relativismo cultural&#8221; fere o direito \u00e0 vida, garantido pela Constitui\u00e7\u00e3o. &#8220;O Brasil condena a mutila\u00e7\u00e3o genital de mulheres na \u00c1frica, mas permite a viola\u00e7\u00e3o dos direitos humanos nas aldeias. Aqui, s\u00f3 \u00e9 crime infantic\u00eddio de branco&#8221;, diz Afonso. Ao longo de tr\u00eas semanas, VEJA esperou por uma declara\u00e7\u00e3o da Funai sobre o projeto do deputado e as hist\u00f3rias que aparecem nesta reportagem. A funda\u00e7\u00e3o n\u00e3o o fez e n\u00e3o justificou sua omiss\u00e3o. Extra-oficialmente, seus antrop\u00f3logos apelam para o argumento absurdo da preserva\u00e7\u00e3o da cultura ind\u00edgena. A Funai deveria ouvir a \u00edndia D\u00e9bora Tan Huare, que representa 165 etnias na Coordena\u00e7\u00e3o das Organiza\u00e7\u00f5es Ind\u00edgenas da Amaz\u00f4nia Brasileira: &#8220;Nossa cultura n\u00e3o \u00e9 est\u00e1vel nem \u00e9 viol\u00eancia corrigir o que \u00e9 ruim. Viol\u00eancia \u00e9 continuar permitindo que crian\u00e7as sejam mortas&#8221;.<\/p>\n<p>Revista Veja, 15 de Agosto de 2007<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Muitas tribos brasileiras ainda matam crian\u00e7as \u2013 e a Funai nada faz para impedir o infantic\u00eddio A \u00edndia Hakani, em dois momentos. Ao lado, abra\u00e7a a m\u00e3e adotiva, M\u00e1rcia, no seu anivers\u00e1rio de 12 anos. Acima, aos 5, em sua tribo: altura e peso de 7 meses. 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