{"id":1053,"date":"2006-06-30T17:44:00","date_gmt":"2006-06-30T20:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.atini.org.br\/tica-e-relativismo-cultura\/"},"modified":"2015-05-16T13:58:41","modified_gmt":"2015-05-16T16:58:41","slug":"etica-e-relativismo-cultural","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.atini.org.br\/en\/etica-e-relativismo-cultural\/","title":{"rendered":"\u00c9tica e relativismo cultural"},"content":{"rendered":"<p><strong>\u00c9tica e relativismo cultural<\/strong><br \/>\nHarry Gensler<br \/>\nJohn Carroll University, Cleveland, USA<\/p>\n<p>Relativismo Cultural (RC): &#8220;Bem&#8221; significa &#8220;socialmente aprovado.&#8221; Escolhe os teus princ\u00edpios morais segundo aquilo que a tua sociedade aprova.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>O relativismo cultural (RC) defende que o bem e o mal s\u00e3o relativos a cada cultura. O &#8220;bem&#8221; coincide com o que \u00e9 &#8220;socialmente aprovado&#8221; numa dada cultura. Os princ\u00edpios morais descrevem conven\u00e7\u00f5es sociais e devem ser baseados nas normas da nossa sociedade.<\/p>\n<p>Come\u00e7aremos por ouvir uma figura ficcional, a que chamarei Ana Relativista, e que nos explicar\u00e1 a sua cren\u00e7a no relativismo cultural. Ao ler o que se segue, ou explica\u00e7\u00f5es semelhantes, proponho-lhe que reflicta at\u00e9 que ponto esta \u00e9 uma perspectiva plaus\u00edvel e se se harmoniza com o seu ponto de vista. Depois de ouvirmos o que Ana tem para dizer, consideraremos v\u00e1rias objec\u00e7\u00f5es ao RC.<\/p>\n<p><strong>1. Ana Relativista<\/strong><br \/>\nO meu nome \u00e9 Ana Relativista. Aderi ao relativismo cultural ao compreender a profunda base cultural que suporta a moralidade.<\/p>\n<p>Fui educada para acreditar que a moral se refere a factos objectivos. Tal como a neve \u00e9 branca, tamb\u00e9m o infantic\u00eddio \u00e9 um mal. Mas as atitudes variam em fun\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o e do tempo. As normas que aprendi s\u00e3o as normas da minha pr\u00f3pria sociedade; outras sociedades possuem diferentes normas. A moral \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o social. Tal como as sociedades criam diversos estilos culin\u00e1rios e de vestu\u00e1rio, tamb\u00e9m criam c\u00f3digos morais distintos. Aprendi-o ao estudar antropologia e vivi-o no M\u00e9xico quando estive l\u00e1 a estudar.<\/p>\n<p>Considere a minha cren\u00e7a de que o infantic\u00eddio \u00e9 um mal. Ensinaram-me isto como se se tratasse de um padr\u00e3o objectivo. Mas n\u00e3o \u00e9; \u00e9 apenas aquilo que defende a sociedade a que perten\u00e7o. Quando afirmo &#8220;O infantic\u00eddio \u00e9 um mal&#8221; quero dizer que a minha sociedade desaprova essa pr\u00e1tica e nada mais. Para os antigos romanos, por exemplo, o infantic\u00eddio era um bem. N\u00e3o tem sentido perguntar qual das perspectivas \u00e9 &#8220;correcta&#8221;. Cada um dos pontos de vista \u00e9 relativo \u00e0 sua cultura, e o nosso \u00e9 relativo \u00e0 nossa. N\u00e3o existem verdades objectivas acerca do bem ou do mal. Quando dizemos o contr\u00e1rio, limitamo-nos a impor a nossas atitudes culturalmente adquiridas como se se tratassem de &#8220;verdades objectivas&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Mal&#8221; \u00e9 um termo relativo. Deixem-me explicar o que isto significa. Quero dizer que nada est\u00e1 absolutamente &#8220;\u00e0 esquerda&#8221;, mas apenas &#8220;\u00e0 esquerda deste ou daquele&#8221; objecto. Do mesmo modo, nada \u00e9 um mal em absoluto, mas apenas um mal nesta ou naquela sociedade particular. O infantic\u00eddio pode ser um mal numa sociedade e um bem noutra.<\/p>\n<p>Podemos expressar esta perspectiva claramente atrav\u00e9s de uma defini\u00e7\u00e3o: &#8220;X \u00e9 um bem&#8221; significa &#8220;a maioria (na sociedade em quest\u00e3o) aprova X&#8221;. Outros conceitos morais como &#8220;mal&#8221; ou &#8220;correcto&#8221;, podem ser definidos da mesma forma. Note-se ainda a refer\u00eancia a uma sociedade espec\u00edfica. A menos que o contr\u00e1rio seja especificado, a sociedade em quest\u00e3o \u00e9 aquela a que pertence a pessoa que formula o ju\u00edzo. Quando afirmo &#8220;Hitler agiu erradamente&#8221; quero de facto dizer &#8220;de acordo com os padr\u00f5es da minha sociedade&#8221;.<\/p>\n<p>O mito da objectividade afirma que as coisas podem ser um bem ou um mal de uma forma absoluta \u2014 e n\u00e3o relativamente a esta ou \u00e0quela cultura. Mas como poderemos saber o que \u00e9 o bem ou o mal em termos absolutos? Como poder\u00edamos argumentar a favor desta ideia sem pressupor os padr\u00f5es da nossa pr\u00f3pria sociedade? As pessoas que falam do bem e do mal de forma absoluta limitam-se a absolutizar as normas que vigoram na sua pr\u00f3pria sociedade. Consideram as normas que lhes foram ensinadas como factos objectivos. Essas pessoas necessitam de estudar antropologia, ou viver algum tempo numa cultura diferente.<\/p>\n<p>Quando adoptei o relativismo cultural tornei-me mais receptiva a aceitar outras culturas. Como muitos outros estudantes, eu partilhava a t\u00edpica atitude &#8220;n\u00f3s estamos certos e eles errados&#8221;. Lutei arduamente contra isto. Apercebi-me de que o outro lado n\u00e3o est\u00e1 &#8220;errado&#8221; mas que \u00e9 apenas &#8220;diferente&#8221;. Temos, por isso, que considerar os outros a partir do seu pr\u00f3prio ponto de vista; ao critic\u00e1-los, limitamo-nos a impor-lhes padr\u00f5es que a nossa pr\u00f3pria sociedade construiu. N\u00f3s, os relativistas culturais, somos mais tolerantes.<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s do relativismo cultural tornei-me tamb\u00e9m mais receptiva \u00e0s normas da minha pr\u00f3pria sociedade. O RC d\u00e1-nos uma base para uma moral comum no interior da cada cultura \u2014 uma base democr\u00e1tica que abrange as ideias de todos e assegura que as normas tenham um amplo suporte. Assim, posso sentir-me solid\u00e1ria com pessoas que partilham comigo uma mesma comunidade, ainda que outros grupos possuam diferentes valores.<\/p>\n<p>Antes de avan\u00e7ar para a sec\u00e7\u00e3o 1.2, reflicta sobre as suas reac\u00e7\u00f5es iniciais ao relativismo cultural.<br \/>\nO que lhe agrada ou desagrada neste ponto de vista? Que objec\u00e7\u00f5es tem a colocar?<\/p>\n<p><strong>2. Objec\u00e7\u00f5es ao RC<\/strong><br \/>\nAna deu-nos uma formula\u00e7\u00e3o clara de um ponto de vista acerca da moral que muitas pessoas consideram atractiva. Reflectiu bastante acerca da moral e isto permite-nos aprender com ela. Contudo, estou convencido de que a sua perspectiva b\u00e1sica neste dom\u00ednio est\u00e1 errada. Suponho que Ana acabar\u00e1 por concordar \u00e0 medida que as suas ideias ficarem mais claras.<\/p>\n<p>Deixem-me indicar o principal problema. RC for\u00e7a-nos a conformar-nos com as normas sociais \u2014 ou contradizemo-nos. Se &#8220;bem&#8221; e &#8220;socialmente aprovado&#8221; significam a mesma coisa, seja o que for ao qual o primeiro termo se aplique tamb\u00e9m o segundo lhe \u00e9 aplic\u00e1vel.<\/p>\n<p>Assim, o seguinte racioc\u00ednio seria v\u00e1lido:<br \/>\nIsto e aquilo s\u00e3o socialmente aprovados. Logo, isto e aquilo s\u00e3o bens.<\/p>\n<p>Se o relativismo cultural fosse verdadeiro, n\u00e3o poder\u00edamos consistentemente discordar dos valores da nossa sociedade. Mas este resultado \u00e9 absurdo. Claro que \u00e9 poss\u00edvel consistentemente discordar dos valores da nossa sociedade. Podemos afirmar consistentemente que algo \u00e9 socialmente aprovado e negar que seja um &#8220;bem&#8221;. Isto n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel se o RC for verdadeiro.<br \/>\nAna poderia aceitar esta consequ\u00eancia implaus\u00edvel e dizer que \u00e9 contradit\u00f3rio discordar moralmente da maioria. Mas esta seria uma consequ\u00eancia especialmente dif\u00edcil de ser aceite.<\/p>\n<p>Ana teria de aceitar que os defensores dos direitos civis estariam a contradizer-se ao discordarem da perspectiva aceite pelos segregacionistas. E teria de aceitar a perspectiva da maioria em todas as quest\u00f5es morais \u2014 mesmo que perceba que a maioria \u00e9 ignorante.<\/p>\n<p>Suponha que Ana tinha aprendido que a maioria das pessoas da sua cultura aprovam a intoler\u00e2ncia e tamb\u00e9m a ideia de ridicularizar pessoas de outras culturas. Teria ainda assim de concluir que a intoler\u00e2ncia \u00e9 um bem (apesar de esta atitude contrariar as suas pr\u00f3prias intui\u00e7\u00f5es).<\/p>\n<p>A intoler\u00e2ncia \u00e9 socialmente aprovada. Logo, a intoler\u00e2ncia \u00e9 um bem.<\/p>\n<p>Ana teria que aceitar a conclus\u00e3o (aceitar que a intoler\u00e2ncia \u00e9 boa) ou rejeitar o relativismo cultural. Se quiser ser consistente \u00e9 necess\u00e1rio modificar pelo menos uma destas perspectivas.<br \/>\nEis uma dificuldade ainda mais grave. Imaginemos que Ana encontrava algu\u00e9m chamada Rita Rebelde, oriunda de um pa\u00eds Nazi. Na terra natal de Rita, os judeus e os cr\u00edticos do governo s\u00e3o colocados em campos de concentra\u00e7\u00e3o. Sucede que a maioria das pessoas, mal informadas sobre o que se passa, aprovam esta pol\u00edtica. Rita \u00e9 uma dissidente. Defende que esta pol\u00edtica, apesar do apoio da maioria das pessoas, est\u00e1 errada. Se Ana quisesse aplicar o RC a esta situa\u00e7\u00e3o particular teria que dizer a Rita algo do g\u00e9nero:<\/p>\n<p>Rita, a palavra &#8220;bem&#8221; refere-se ao que \u00e9 aprovado pela tua cultura. Como essa cultura aprova o racismo e a opress\u00e3o, deves aceitar esta atitude como um bem. N\u00e3o podes pensar diferentemente. A perspectiva minorit\u00e1ria est\u00e1 sempre errada \u2014 o &#8220;bem&#8221; \u00e9, por defini\u00e7\u00e3o, aquilo que socialmente \u00e9 aprovado.<\/p>\n<p>A perspectiva do RC \u00e9 intolerante para com as minorias (que automaticamente est\u00e3o erradas) e for\u00e7aria Rita a aceitar o racismo e a opress\u00e3o como sendo bons. Isto decorre da defini\u00e7\u00e3o de &#8220;bem&#8221; como algo &#8220;socialmente aprovado&#8221;. Ao compreend\u00ea-lo, talvez abandone o RC.<\/p>\n<p>O racismo \u00e9 um bom teste para a \u00e9tica. Uma perspectiva \u00e9tica satisfat\u00f3ria deve fornecer-nos os meios para combater actos racistas. O RC falha neste aspecto, dado estar comprometido com a tese segundo a qual as ac\u00e7\u00f5es racialmente motivadas s\u00e3o boas numa dada sociedade se essa sociedade as aprova. Se Rita seguisse o RC, teria que concordar com a atitude racista da maioria, ainda que as pessoas estivessem mal informadas ou fossem ignorantes. O relativismo cultural parece bastante insatisfat\u00f3rio neste ponto.<\/p>\n<p>A educa\u00e7\u00e3o moral \u00e9 tamb\u00e9m um bom teste \u00e9tico. Se aceitassemos o RC, como educar\u00edamos os nossos filhos em quest\u00f5es de ordem moral? Ensinar-lhes-\u00edamos que pensassem e agissem de acordo com as normas da sua sociedade, qualquer que esta fosse. Estar\u00edamos a ensin\u00e1-los a serem conformistas. Ensinar-lhes-\u00edamos, por exemplo, que os seguintes racioc\u00ednios s\u00e3o correctos:<\/p>\n<p>&#8220;A minha sociedade aprova A; logo, A \u00e9 bom.&#8221;<br \/>\n&#8220;O meu grupo aprova que nos embebedemos \u00e0s sextas-feiras \u00e0 noite e conduzamos no regresso a casa; logo, esta \u00e9 uma boa atitude.&#8221;<br \/>\n&#8220;A minha sociedade \u00e9 Nazi e aprova o racismo; logo, o racismo \u00e9 um bem.&#8221;<\/p>\n<p>Aceitar o RC priva-nos de exercer qualquer sentido cr\u00edtico acerca das normas da nossa sociedade. Estas normas n\u00e3o podem estar erradas \u2014 ainda que resultem da estupidez e da ignor\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Do mesmo modo, as normas de outras sociedades (mesmo as da terra natal de Rita) n\u00e3o podem estar erradas ou serem criticadas. O RC contraria o esp\u00edrito cr\u00edtico que \u00e9 pr\u00f3prio da filosofia.<\/p>\n<p><strong>3. Diversidade moral<\/strong><\/p>\n<p>O relativismo cultural considera o mundo como algo que est\u00e1 dividido de uma forma n\u00edtida em sociedades distintas. Em cada uma delas n\u00e3o existe desacordo em quest\u00f5es morais ou apenas em pequena escala, dado que a perspectiva maiorit\u00e1ria determina o que \u00e9 considerado um bem ou um mal nessa sociedade. Mas o mundo n\u00e3o \u00e9 assim. Pelo contr\u00e1rio, o mundo \u00e9 uma mistura confusa de sociedades e grupos sobrepostos; e os indiv\u00edduos n\u00e3o seguem necessariamente o ponto de vista da maioria.<\/p>\n<p>O relativismo cultural ignora o problema dos subgrupos. Todos n\u00f3s fazemos parte de grupos sobrepostos. Cada um de n\u00f3s, por exemplo, faz parte de uma na\u00e7\u00e3o, de um estado, de uma cidade, de um bairro. Al\u00e9m disso, cada um de n\u00f3s pertence a v\u00e1rias comunidades, profissionais, religiosas, grupos de amigos, etc. \u00c9 frequente estes grupos terem valores que est\u00e3o em conflito. De acordo com o RC, quando afirmo &#8220;O racismo \u00e9 um mal&#8221; pretendo dizer &#8220;A minha sociedade desaprova o racismo&#8221;. Mas a que sociedade nos referimos? Talvez a maioria das pessoas que pertencem \u00e0 minha comunidade religiosa e ao meu pa\u00eds desaprove o racismo, enquanto a maioria dos que fazem parte do meu grupo profissional e familiar o aprovem. O relativismo cultural poderia dar-nos meios para nos conduzirmos correctamente no plano moral apenas se cada um de n\u00f3s pertencesse a uma \u00fanica sociedade. Mas o mundo \u00e9 bastante mais complicado do que este quadro sugere. At\u00e9 certo ponto, todos n\u00f3s somos indiv\u00edduos multi-culturalizados.<\/p>\n<p>O RC n\u00e3o tenta estabelecer normas comuns entre sociedades. \u00c0 medida que a tecnologia invade o planeta, as disputas morais entre diferentes sociedades t\u00eam tend\u00eancia para se tornarem mais importantes. O pa\u00eds A aprova a exist\u00eancia de direitos iguais para as mulheres (ou outras ra\u00e7as e religi\u00f5es), mas o pa\u00eds B desaprova-o. Que deve fazer uma companhia multinacional que opera nos dois pa\u00edses? Ou as sociedades A e B t\u00eam conflitos de valores que conduzem \u00e0 guerra. Dado que o relativismo cultural pouco nos ajuda acerca destes problemas, oferece-nos uma base muito pobre para responder \u00e0s exig\u00eancias da vida no s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>Como responder \u00e0 diversidade cultural entre sociedades? Ana rejeita a atitude dogm\u00e1tica do g\u00e9nero &#8220;N\u00f3s estamos certos e eles errados&#8221;. Percebe a necessidade de compreender as sociedades e culturas diferentes da sua pr\u00f3pria a partir do ponto de vista dessas culturas e sociedades. Estas s\u00e3o ideias positivas. Mas, em seguida, afirma tamb\u00e9m que nenhum dos lados pode estar errado. Isto limita a nossa capacidade para aprender. Se a nossa cultura n\u00e3o pode estar errada, n\u00e3o pode aprender com os seus pr\u00f3prios erros. Compreender as normas de outras culturas n\u00e3o permitir\u00e1 ajudar-nos a corrigir os erros das nossas pr\u00f3prias sociedades.<\/p>\n<p>Aqueles que acreditam em valores objectivos v\u00eaem estes assuntos de um modo diferente. Poderiam defender algo como isto:<\/p>\n<p>Existem verdades para descobrir no dom\u00ednio moral, mas nenhuma cultura possui o monop\u00f3lio destas verdades. As diferentes culturas necessitam de aprender umas com as outras. Para que tomemos consci\u00eancia dos erros e dos nossos valores, \u00e9 necess\u00e1rio conhecer como procedem as outras culturas, e de que forma reagem ao que n\u00f3s fazemos. Aprender com diferentes culturas pode ajudar-nos a corrigir os nossos valores e a aproximar-nos da verdade acerca do modo como devemos viver.<\/p>\n<p><strong>4. Valores objectivos<\/strong><br \/>\n\u00c9 necess\u00e1rio falar um pouco mais acerca da objectividade dos valores. Este \u00e9 um t\u00f3pico bastante vasto e importante.<\/p>\n<p>A perspectiva objectivista (tamb\u00e9m designada realismo moral) defende que certas coisas s\u00e3o objectivamente um bem ou objectivamente um mal, independentemente do que possamos sentir ou pensar. Martin Luther King, por exemplo, defendia que o racismo est\u00e1 objectivamente errado. Que o racismo esteja errado era para ele um facto. Qualquer pessoa e cultura que aprovasse o racismo estariam erradas. Ao dizer isto, King n\u00e3o estava a absolutizar as normas da nossa sociedade; discordava, pelo contr\u00e1rio, das normas amplamente aceites. Fazia apelo a uma verdade mais elevada acerca do bem e do mal, uma verdade que n\u00e3o estava dependente do modo de pensar ou sentir das pessoas neste ou naquele momento. Fazia apelo a valores objectivos.<\/p>\n<p>Ana rejeita a cren\u00e7a em valores objectivos e chama-lhe &#8220;o mito da objectividade&#8221;. Nesta perspectiva, as coisas s\u00e3o um bem ou um mal apenas relativamente a esta ou \u00e0quela cultura. N\u00e3o s\u00e3o objectivamente boas ou m\u00e1s, como King pensava. Mas ser\u00e3o os valores objectivos realmente um &#8220;mito&#8221;? Para responder a isto conv\u00e9m examinar o racioc\u00ednio de Ana.<\/p>\n<p>Ana tinha tr\u00eas argumentos contra a objectividade dos valores. N\u00e3o existem verdades morais objectivas porque:<\/p>\n<ul>\n<li>A moral \u00e9 um produto da cultura;<\/li>\n<li>As sociedades discordam amplamente acerca da moralidade;<\/li>\n<li>N\u00e3o existe uma maneira clara de resolver diferen\u00e7as morais.<\/li>\n<\/ul>\n<p>De facto, qualquer destes argumentos cede com facilidade se o examinarmos cuidadosamente.<\/p>\n<ol>\n<li>&#8220;Dado que a moral \u00e9 um produto da cultura, n\u00e3o podem existir verdades morais objectivas&#8221;. O problema deste racioc\u00ednio \u00e9 que um produto da cultura pode expressar uma verdade objectiva. Qualquer livro \u00e9 um produto cultural; no entanto, muitos livros exprimem verdades objectivas. Da mesma forma, um c\u00f3digo moral pode ser um produto cultural e expressar verdades objectivas acerca da maneira como as pessoas devem viver.<\/li>\n<li>&#8220;Visto as diferentes culturas discordarem amplamente sobre a moral, n\u00e3o podem existir verdades morais objectivas.&#8221; O simples facto de existir desacordo n\u00e3o mostra, no entanto, que n\u00e3o existe verdade neste dom\u00ednio e que nenhum dos lados est\u00e1 certo ou errado. O extenso desacordo entre diferentes culturas acerca de antropologia, religi\u00e3o, e at\u00e9 em f\u00edsica, n\u00e3o impede a exist\u00eancia de verdades objectivas nestes dom\u00ednios. Logo, o desacordo em quest\u00f5es morais n\u00e3o mostra que n\u00e3o exista verdade nestes assuntos. Podemos igualmente questionar-nos se as diferentes culturas divergem assim t\u00e3o profundamente sobre a moral. Na maior parte das culturas existem normas muito semelhantes quanto a matar, roubar e mentir. E muitas das diferen\u00e7as podem ser explicadas em resultado da aplica\u00e7\u00e3o dos mesmos valores b\u00e1sicos a diferentes situa\u00e7\u00f5es. A Regra de Ouro &#8220;Trata os outros como queres ser tratado&#8221; \u00e9 quase universalmente aceite em todo o mundo. E as diferentes culturas que constituem as Na\u00e7\u00f5es Unidas concordaram em larga medida a respeito dos direitos humanos mais elementares.<\/li>\n<li>&#8220;Como n\u00e3o existe uma maneira clara de resolver diferen\u00e7as morais, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que existam verdades morais objectivas.&#8221; Mas podem existir maneiras claras de resolver pelo menos um grande n\u00famero de diferen\u00e7as morais. Precisamos de uma forma de raciocinar em \u00e9tica que fa\u00e7a apelo \u00e0s pessoas inteligentes e com suficiente abertura de esp\u00edrito de todas as culturas \u2014 isto faria pela \u00e9tica o que se obteve em ci\u00eancia com o m\u00e9todo experimental. Ainda que n\u00e3o existisse uma maneira s\u00f3lida de conhecer verdades morais, da\u00ed n\u00e3o se segue que tais verdades n\u00e3o existam. Existem verdades que n\u00e3o conhecemos inequivocamente. Ter\u00e1 chovido neste lugar 500 anos atr\u00e1s? H\u00e1 seguramente uma verdade acerca disto que nunca conheceremos. Apenas uma pequena percentagem de verdades s\u00e3o conhecidas. Logo, podem existir verdades morais objectivas mesmo que n\u00e3o possamos sab\u00ea-lo.<\/li>\n<\/ol>\n<p>O ataque de Ana aos valores morais objectivos falhou. Mas isto n\u00e3o encerra o tema porque h\u00e1 mais argumentos. O debate sobre a objectividade dos valores \u00e9 importante. Antes de terminar gostaria de clarificar alguns aspectos. O ponto de vista objectivista afirma que algumas coisas s\u00e3o objectivamente um bem ou um mal, independentemente do que possamos pensar ou sentir; contudo, esta perspectiva est\u00e1 preparada para aceitar algum relativismo noutras \u00e1reas. Muitas regras sociais s\u00e3o claramente determinadas por padr\u00f5es locais:<\/p>\n<ul>\n<li>Regra local: &#8220;\u00c9 proibido virar \u00e0 direita com a luz vermelha.&#8221;<\/li>\n<li>Regra de etiqueta local: &#8220;Use o garfo apenas com a m\u00e3o esquerda.&#8221;<\/li>\n<\/ul>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio respeitar este g\u00e9nero de regras locais; ao proceder de outra maneira podemos ferir as pessoas, quer porque chocamos contra os seus carros quer porque ferimos os seus sentimentos. Na concep\u00e7\u00e3o objectivista, a exig\u00eancia de n\u00e3o magoar as outras pessoas \u00e9 uma regra de um g\u00e9nero diferente \u2014 uma regra moral \u2014 n\u00e3o determinada por costumes locais. Considera-se que as regras morais possuem mais autoridade que as leis governamentais ou as regras de etiqueta; s\u00e3o regras que qualquer sociedade deve respeitar se quiser sobreviver e prosperar. Se visitamos um lugar cujos padr\u00f5es permitem magoar as pessoas por raz\u00f5es triviais, ent\u00e3o esses padr\u00f5es est\u00e3o errados. O relativismo cultural disputa esta afirma\u00e7\u00e3o. A ideia \u00e9 que os padr\u00f5es locais s\u00e3o determinantes ainda que se trate de princ\u00edpios morais b\u00e1sicos; assim, ferir outras pessoas por motivos triviais \u00e9 um bem se esta atitude for socialmente aprovada. Respeitar as diferen\u00e7as culturais n\u00e3o nos transforma em relativistas culturais. Este \u00e9 um falso estere\u00f3tipo. O que caracteriza o relativismo cultural \u00e9 a afirma\u00e7\u00e3o de que tudo o que \u00e9 socialmente aprovado \u00e9 um bem. 5. Ci\u00eancias sociaisH\u00e1 um estere\u00f3tipo bastante divulgado que afirma que todos os especialistas em ci\u00eancias sociais s\u00e3o relativistas culturais. Na verdade, os especialistas em ci\u00eancias sociais defendem um \u00e2mbito variado de perspectivas sobre os fundamentos da \u00e9tica. Muitos rejeitam este g\u00e9nero de relativismo. O psic\u00f3logo moral Lawrence Kohlberg, por exemplo, considerava o relativismo cultural uma abordagem relativamente imatura da moralidade, t\u00edpica de adolescentes e de adultos jovens. Kohlberg afirmava que todos n\u00f3s, independentemente da nossa cultura, desenvolvemos o pensamento moral atrav\u00e9s de uma s\u00e9rie de est\u00e1dios. Os primeiros quatro s\u00e3o os seguintes:<\/p>\n<ol>\n<li>Puni\u00e7\u00e3o\/obedi\u00eancia: o &#8220;mal&#8221; \u00e9 o que implica puni\u00e7\u00e3o.<\/li>\n<li>Recompensas: o &#8220;bem&#8221; \u00e9 aquilo que nos d\u00e1 o que desejamos.<\/li>\n<li>Aprova\u00e7\u00e3o familiar: o &#8220;bem&#8221; \u00e9 o que agrada \u00e0 mam\u00e3 e ao pap\u00e1.<\/li>\n<li>Aprova\u00e7\u00e3o social: o &#8220;bem&#8221; \u00e9 aquilo que \u00e9 socialmente aprovado.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Quando s\u00e3o muito novas, as crian\u00e7as pensam na moral em termos de puni\u00e7\u00f5es e obedi\u00eancia. Mais tarde, come\u00e7am a pensar em termos de recompensa e, em seguida, em termos de aprova\u00e7\u00e3o familiar. Mais tarde ainda, na adolesc\u00eancia ou quando s\u00e3o adultos jovens, atingem a fase do relativismo cultural. Nesta fase, o &#8220;bem&#8221; coincide com o que \u00e9 socialmente aprovado, o grupo de amigos em primeiro lugar, e depois a sociedade como um todo. \u00c9 dada import\u00e2ncia ao tipo de vestu\u00e1rio que se usa e ao g\u00e9nero certo de m\u00fasica que se ouve \u2014 onde &#8220;g\u00e9nero certo&#8221; significa seja o que for que \u00e9 socialmente aprovado. S\u00e3o muitos os jovens estudantes liceais que se debatem com estas quest\u00f5es. Talvez por isso levem a s\u00e9rio o relativismo cultural \u2014 mesmo que o ponto de vista seja implaus\u00edvel quando o analisamos cuidadosamente. Segundo Kohlberg, que fase sucede ao relativismo cultural? Por vezes, confus\u00e3o e cepticismo; de facto, um curso de \u00e9tica pode promover esta atitude. A seguir, passamos para o est\u00e1dio 5 (semelhante ao utilitarismo das regras) ou para o est\u00e1dio 6 (pr\u00f3ximo da Regra de Ouro). Ambos procuram avaliar as normas convencionais racionalmente. N\u00e3o estou a referir Kohlberg com o objectivo de argumentar que, sendo correcta a sua perspectiva, o relativismo cultural est\u00e1 errado. Esta perspectiva \u00e9 controversa. S\u00e3o v\u00e1rios os psic\u00f3logos que prop\u00f5em uma sequ\u00eancia diferente dos est\u00e1dios morais ou que rejeitam a ideia de que existem est\u00e1dios. Al\u00e9m disso, o relativismo cultural j\u00e1 foi adequadamente demolido; n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria a ajuda da psicologia. Mencionei Kohlberg porque muitas pessoas se sentem pressionadas a aceitar o relativismo cultural em virtude do mito de que todos os especialistas em ci\u00eancias sociais s\u00e3o relativistas culturais. Mas este g\u00e9nero de consenso n\u00e3o existe. Kohlberg e muitos outros especialistas em ci\u00eancias sociais rejeitam enfaticamente o relativismo cultural. V\u00eaem nele um est\u00e1dio imaturo do pensamento moral que nos faz conformar com a nossa sociedade. A abordagem de Kohlberg coloca, no entanto, um problema acerca do significado de &#8220;bem&#8221;. As pessoas podem querer dizer com esta palavra diferentes coisas em est\u00e1dios diferentes; numa crian\u00e7a, &#8220;bem&#8221; pode significar &#8220;o que agrada \u00e0 mam\u00e3 e ao pap\u00e1&#8221;. Logo, devemos dirigir a nossa aten\u00e7\u00e3o para aquilo que as pessoas com maturidade moral t\u00eam em vista com esta palavra. Se o nosso argumento estiver correcto, uma pessoa com maturidade moral, quando utiliza este termo, n\u00e3o pretende afirmar que &#8220;bem&#8221; significa &#8220;socialmente aprovado&#8221;. 6. Sum\u00e1rioO relativismo cultural afirma que &#8220;bem&#8221; significa o que \u00e9 &#8220;socialmente aprovado&#8221; pela maioria de uma dada cultura. O infant\u00edcidio n\u00e3o \u00e9 objectivamente um bem ou um mal; pelo contr\u00e1rio, \u00e9 um bem numa sociedade que o aprove e um mal numa sociedade onde n\u00e3o obtenha aprova\u00e7\u00e3o. O relativismo cultural considera que a moral \u00e9 um produto da cultura. Afirma que as diferentes sociedades discordam amplamente sobre a moral e que n\u00e3o temos meios claros para resolver as diferen\u00e7as. Os relativistas culturais consideram-se pessoas tolerantes; olham para as outras culturas n\u00e3o como estando &#8220;erradas&#8221; mas como &#8220;diferentes&#8221;. Apesar de inicialmente plaus\u00edvel, o relativismo cultural tem v\u00e1rios problemas. Por exemplo, torna imposs\u00edvel discordar dos valores da nossa sociedade. Acontece, por vezes, afirmarmos que, apesar de socialmente aprovada, uma certa atitude n\u00e3o \u00e9 boa. E isto est\u00e1 em contradi\u00e7\u00e3o com o RC. Al\u00e9m disso, o relativismo cultural implica que a intoler\u00e2ncia e o racismo sejam um &#8220;bem&#8221; se a sociedade o aprovar. Leva-nos ainda a aceitar as normas da nossa sociedade acriticamente. O relativismo cultural combate a ideia de que existem valores objectivos. O ataque pode ser desmontado com facilidade se o examinarmos cuidadosamente. S\u00e3o muitos os especialistas em ci\u00eancias sociais que se op\u00f5em ao relativismo cultural. O psic\u00f3logo Lawrence Kohlberg, por exemplo, defende que as pessoas de todas as culturas passam pelos mesmos est\u00e1dios de desenvolvimento moral. O relativismo cultural representa um est\u00e1dio relativamente baixo no qual simplesmente nos conformamos com os valores da sociedade em que vivemos. Em est\u00e1dios mais avan\u00e7ados, o relativismo cultural \u00e9 rejeitado; consideramos criticamente as normas aceites e pensamos pela nossa cabe\u00e7a em quest\u00f5es de ordem moral. Como fazer tal coisa \u00e9 o tema deste livro. 7. Orienta\u00e7\u00e3o do estudo (quest\u00f5es)<\/p>\n<ol>\n<li>Como \u00e9 que o relativismo cultural define o &#8220;bem&#8221;? De que m\u00e9todos disp\u00f5e para formar cren\u00e7as morais?<\/li>\n<li>Ana foi educada para acreditar em valores objectivos. Indique duas experi\u00eancias que a conduziram a aceitar o relativismo cultural? (ponto 1)<\/li>\n<li>Quando Ana rejeitou os &#8220;valores objectivos&#8221; ou o &#8220;mito da objectividade&#8221;, o qu\u00ea, exactamente, foi rejeitado? Que significa dizer que &#8220;bom&#8221; \u00e9 um termo relativo?<\/li>\n<li>Por que raz\u00e3o o relativismo cultural nos torna, hipoteticamente, mais tolerantes a respeito de outras culturas?<\/li>\n<li>Que benef\u00edcios hipot\u00e9ticos extrai a sociedade de Ana do relativismo cultural?<\/li>\n<li>Esquematize (numa p\u00e1gina) as suas reac\u00e7\u00f5es iniciais ao relativismo cultural. Parece-lhe plaus\u00edvel? O que lhe agrada e desagrada nesta perspectiva? Consegue pensar numa forma de mostrar a sua falsidade?<\/li>\n<li>Por que raz\u00e3o o relativismo cultural nos conduz a conformar-nos com os valores da sociedade?<\/li>\n<li>Na perspectiva do relativismo cultural o que significa &#8220;a toler\u00e2ncia \u00e9 um bem&#8221;? Por que raz\u00e3o esta perspectiva n\u00e3o implica necessariamente que a toler\u00e2ncia \u00e9 um bem?<\/li>\n<li>Explique a hist\u00f3ria acerca de Rita Rebelde \u2014 e em que medida representa um problema para a perspectiva de Ana.<\/li>\n<li>Como se pode aplicar o relativismo cultural ao racismo e \u00e0 educa\u00e7\u00e3o moral?<\/li>\n<li>Explique o problema dos subgrupos sociais (ponto 3).<\/li>\n<li>\u00c9 poss\u00edvel estabelecer normas comuns entre sociedades com base no relativismo cultural?<\/li>\n<li>Esboce os modos como um relativista cultural e um defensor da objectividade dos valores responderiam a esta quest\u00e3o: &#8220;O conhecimento de outras culturas pode permitir-nos corrigir erros nos valores da nossa pr\u00f3pria cultura&#8221;.<\/li>\n<li>Qual a perspectiva de Martin Luther King acerca de valores objectivos? Em que medida difere da perspectiva de Ana? (ponto 4)<\/li>\n<li>Explique e critique os tr\u00eas argumentos de Ana para rejeitar valores objectivos.<\/li>\n<li>Na perspectiva objectivista, de que modo diferem as regras morais das regras legais e de etiqueta?<\/li>\n<li>Ser\u00e1 que todos os especialistas em ci\u00eancias sociais s\u00e3o relativistas morais? Qual o ponto de vista do psic\u00f3logo Kohlberg acerca do relativismo cultural?<\/li>\n<li>Esboce os est\u00e1dios de desenvolvimento moral de Kholberg.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Harry Gensler<br \/>\nTradu\u00e7\u00e3o de Paulo Ruas<br \/>\nExtra\u00eddo de <a href=\"http:\/\/www.amazon.co.uk\/exec\/obidos\/ASIN\/0415156254\/desiderionet\">Ethics: A contemporary introduction<\/a>, de Harry Gensler (Routledge, 1998)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9tica e relativismo cultural Harry Gensler John Carroll University, Cleveland, USA Relativismo Cultural (RC): &#8220;Bem&#8221; significa &#8220;socialmente aprovado.&#8221; Escolhe os teus princ\u00edpios morais segundo aquilo que a tua sociedade aprova.<\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":610,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[102],"tags":[66,92],"class_list":["post-1053","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-articles","tag-articles","tag-cultural-relativism"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.atini.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1053","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.atini.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.atini.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.atini.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.atini.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1053"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.atini.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1053\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1105,"href":"https:\/\/www.atini.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1053\/revisions\/1105"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.atini.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/610"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.atini.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1053"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.atini.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1053"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.atini.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1053"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}