{"id":1060,"date":"2005-09-18T16:45:00","date_gmt":"2005-09-18T19:45:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.atini.org.br\/programa-fantstico\/"},"modified":"2018-12-15T20:23:20","modified_gmt":"2018-12-15T23:23:20","slug":"programa-fantstico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.atini.org.br\/en\/programa-fantstico\/","title":{"rendered":"Programa Fant\u00e1stico"},"content":{"rendered":"<p><strong>O drama de duas indiazinhas Zuruah\u00e3<\/strong><\/p>\n<p>Nossos rep\u00f3rteres acompanham a aventura de duas \u00edndias rec\u00e9m-nascidas que foram abandonadas para morrer no meio da floresta. As duas beb\u00eas \u00edndias foram levadas da Amaz\u00f4nia para S\u00e3o Paulo por um grupo de mission\u00e1rios. Se ficassem na mata, os beb\u00eas teriam outro destino: a cultura da tribo determina que elas deveriam morrer porque nasceram doentes. Agora, para receber tratamento m\u00e9dico, elas precisam vencer uma nova batalha &#8211; contra a burocracia.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Sumawani tem apenas seis meses. Quase nada diante de uma vida inteira. Mas, no caso dela, ter chegado at\u00e9 aqui pode ser considerado um milagre.<\/p>\n<p>A indiazinha \u00e9 uma Zuruah\u00e3 &#8211; tribo do Amazonas que vive praticamente isolada. Nasceu hermafrodita: o \u00f3rg\u00e3o genital dela tem caracter\u00edsticas dos dois sexos. Os \u00edndios n\u00e3o aceitam quem nasce com defici\u00eancia f\u00edsica. Para eles, s\u00e3o crian\u00e7as incapazes de sobreviver na floresta.<\/p>\n<p>\u201cNa hora que nasceu e ela a pegou, ela viu que era diferente. E viu que teria que matar\u201d, traduz M\u00e1rcia Suzuki, mission\u00e1ria da Jocum.<\/p>\n<p>Em casos como o de Sumawani, n\u00e3o costuma haver perd\u00e3o. Os \u00edndios cometem o infantic\u00eddio: matam os beb\u00eas rec\u00e9m-nascidos. A m\u00e3e, Kusiama, n\u00e3o fugiu \u00e0 regra. A av\u00f3 foi quem mudou de id\u00e9ia e recolheu a crian\u00e7a.<\/p>\n<p>A\u00ed foi a vez de o pai tentar matar a menina. \u201cEu mesmo peguei a crian\u00e7a e falei que ia matar. Mas as pessoas da aldeia pediram para que eu a levasse aos m\u00e9dicos do branco, que eles talvez pudessem resolver o problema\u201d, revela Naru, pai de Sumawani.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o da pequena Iganani, de um ano e meio, \u00e9 mais dram\u00e1tica. Ela nasceu com paralisia cerebral e n\u00e3o move as pernas. Precisa de tratamento di\u00e1rio para conseguir algum progresso.<\/p>\n<p>A m\u00e3e, Muwaji, abandonou a filha, e tamb\u00e9m neste caso, foi a av\u00f3 quem salvou a menina. Ent\u00e3o, o instinto materno falou mais alto: Muwaji mudou de id\u00e9ia.<\/p>\n<p>\u201cSe eu lev\u00e1-la para a casa dos Zuruah\u00e3 e ela n\u00e3o andar, vou ter que dar veneno pra ela. O meu cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 nem pensando em voltar para os Zuruah\u00e3 por causa da minha filha. Eu ficaria muito tempo com os brancos para ela melhorar\u201d, lembra a m\u00e3e de Iganani.<\/p>\n<p>As duas fam\u00edlias pediram ajuda a um grupo de mission\u00e1rios evang\u00e9licos que freq\u00fcenta a aldeia. Oito \u00edndios foram levados para um s\u00edtio perto de S\u00e3o Paulo, onde j\u00e1 est\u00e3o h\u00e1 dois meses. Os exames de sangue do beb\u00ea hermafrodita comprovaram que \u00e9 uma menina. O Hospital das Cl\u00ednicas de S\u00e3o Paulo se disp\u00f4s a fazer de gra\u00e7a uma cirurgia de corre\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cSe adequadamente indicar a cirurgia, no momento oportuno, tratada e tomando rem\u00e9dio, ser\u00e1 uma mulher perfeita. Dever\u00e1 tomar rem\u00e9dio a vida inteira e est\u00e1 perman\u00eancia \u00e9 que \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o muito delicada, principalmente em se tratando de ind\u00edgena, que deve voltar a sua comunidade, no meio do Amazonas\u201d, explica o doutor Zan Mustacchi, pediatra e geneticista.<\/p>\n<p>Mas uma den\u00fancia no Minist\u00e9rio P\u00fablico est\u00e1 impedindo a cirurgia. Mission\u00e1rios cat\u00f3licos, questionaram a retirada dos \u00edndios da aldeia, porque agora estariam expostos a doen\u00e7as e ao choque cultural de uma cidade grande como S\u00e3o Paulo. Com isso, a Funai (Funda\u00e7\u00e3o Nacional do \u00cdndio) e a Funasa (Funda\u00e7\u00e3o Nacional de Sa\u00fade) ainda n\u00e3o liberaram os documentos necess\u00e1rios para que o hospital possa operar a beb\u00ea \u00edndia.<\/p>\n<p>\u201cA Funasa \u00e9 que cuida da sa\u00fade. Ela deveria estar acompanhando estes casos e se tivesse achado que merecia um transporte de fora da \u00e1rea para um hospital, ela mesmo \u00e9 que deveria ter feito isso\u201d, observa o presidente da Funai, M\u00e9rcio Pereira Gomes.<\/p>\n<p>\u201cSe tem um problema da cirurgia que tem de ser feita, gastos de manuten\u00e7\u00e3o dos \u00edndios durante esse per\u00edodo, a Funasa se compromete a bancar tudo isso, mas sob a orienta\u00e7\u00e3o, nesse caso, da Funai\u201d, comenta o presidente da Funasa, Paulo Lustosa.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 uma falha da Funai de ver pessoas saindo sem ter conhecimento. Uma falha, enfim, do estado brasileiro, Funai e Funasa juntos, n\u00f3s assumimos isso\u201d, diz M\u00e9rcio.<\/p>\n<p>\u201cAcima de pensar em mudan\u00e7a cultural, acho que \u00e9 mais importante a vida dessa crian\u00e7a, mesmo que a vinda para S\u00e3o Paulo possa acarretar alguma mudan\u00e7a cultural para eles\u201d, opina o mission\u00e1rio Edson Suzuki.<\/p>\n<p>\u201cPor todo esse conjunto de a\u00e7\u00f5es que essa miss\u00e3o fez, n\u00f3s vamos exigir a retirada dela, n\u00f3s vamos pedir \u00e0 Funasa que encaminhe a m\u00e9dicos para avaliar a sa\u00fade desses \u00edndios\u201d, adianta M\u00e9rcio.<\/p>\n<p>Sumawani driblou o destino de morte, no momento em que os pais desistiram de mat\u00e1-la. Venceu, sem saber, uma grande batalha &#8211; talvez a mais dif\u00edcil. Mas o beb\u00ea ainda n\u00e3o tem garantia de vida na aldeia. Sem a opera\u00e7\u00e3o, desta vez, Sumawani poder\u00e1 n\u00e3o escapar do sacrif\u00edcio.<\/p>\n<p>\u201cSe o m\u00e9dico n\u00e3o operar, eu vou ter que dar veneno para ela, ela vai morrer. Eu tamb\u00e9m acabaria tomando veneno, eu ia me matar. N\u00e3o temos medo de se matar\u201d, declara Naru, pai de Sumawani.<\/p>\n<p>\u201cO que o Minist\u00e9rio P\u00fablico federal gostaria de acrescentar \u00e9 que n\u00e3o veio para S\u00e3o Paulo, de forma alguma para proibir a cirurgia dessa crian\u00e7a no \u00e2mbito do Hospital das Cl\u00ednicas\u201d, diz o procurador da Rep\u00fablica no Amazonas, Andr\u00e9 Lasmar.<\/p>\n<p>Mas o Minist\u00e9rio P\u00fablico s\u00f3 vai decidir o destino das duas indiazinhas depois que ouvir a opini\u00e3o de uma equipe de especialistas que acaba de ser formada para estudar o caso.<\/p>\n<p>\u201cSe o m\u00e9dico n\u00e3o operar, meu cora\u00e7\u00e3o \u00e9 tristeza. Se o m\u00e9dico operar, meu cora\u00e7\u00e3o \u00e9 sorriso\u201d, diz Naru.<\/p>\n<p>A tribo Zuruah\u00e3 vive h\u00e1 cem anos perto do Rio Purus, na Amaz\u00f4nia. S\u00e3o pouco mais de 130 \u00edndios e est\u00e3o numa reserva pouco maior do que a regi\u00e3o metropolitana de S\u00e3o Paulo.<br \/>\nZuruah\u00e3 era o nome de um \u00edndio que vagava sozinho nesta regi\u00e3o e era conhecido dos brancos. At\u00e9 o primeiro contato, h\u00e1 20 anos, a tribo n\u00e3o tinha nome. Quando a equipe de antrop\u00f3logos perguntou que tribo era aquela, um dos \u00edndios respondeu, &#8220;Zuruah\u00e3&#8221; em homenagem \u00e0quele \u00edndio solit\u00e1rio.<\/p>\n<p>Os Zuruah\u00e3 cultuam a natureza. Para eles, tudo tem esp\u00edrito, a ess\u00eancia de vida; desde uma pequena pedra, at\u00e9 as \u00e1rvores frut\u00edferas. S\u00f3 o paj\u00e9 consegue ver esses esp\u00edritos.<\/p>\n<p>Esta tribo \u00e9 remanescente de um massacre promovido por seringueiros no in\u00edcio do s\u00e9culo passado. Os guerreiros e os chefes espirituais morreram.<\/p>\n<p>Programa exibido em 18.09.2005<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O drama de duas indiazinhas Zuruah\u00e3 Nossos rep\u00f3rteres acompanham a aventura de duas \u00edndias rec\u00e9m-nascidas que foram abandonadas para morrer no meio da floresta. As duas beb\u00eas \u00edndias foram levadas da Amaz\u00f4nia para S\u00e3o Paulo por um grupo de mission\u00e1rios. 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