{"id":2846,"date":"2008-06-05T06:38:43","date_gmt":"2008-06-05T09:38:43","guid":{"rendered":"https:\/\/www.atini.org.br\/?p=2846"},"modified":"2019-03-05T06:49:39","modified_gmt":"2019-03-05T09:49:39","slug":"minha-filha-se-chama-sorriso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.atini.org.br\/en\/minha-filha-se-chama-sorriso\/","title":{"rendered":"Minha Filha Se Chama Sorriso"},"content":{"rendered":"<p>Eu estava na aldeia quando ela nasceu. Eu, uma ling\u00fcista carioca tentando analisar o sistema gramatical de uma l\u00edngua desconhecida, e ao mesmo tempo tentando sobreviver no meio de uma tribo remota do Amazonas. Meu marido, um ling\u00fcista descendente de japon\u00eas com dotes art\u00edsticos, mas que parecia perfeitamente adaptado \u00e0 vida na floresta. Naquela manh\u00e3 vimos Bujini passar, uma \u00edndia jovem e bonita, segurando o barrig\u00e3o de nove meses de gravidez. Em pouco mais de meia hora ela voltou, carregando nos bra\u00e7os uma linda menininha.<\/p>\n<p>Alguns anos depois acompanhamos, perplexos, a trag\u00e9dia que caiu sobre a fam\u00edlia de Bujini. Dos cinco filhos que ela teve, apenas os tr\u00eas primeiros eram saud\u00e1veis. Os dois mais novos, para desgra\u00e7a da fam\u00edlia, apresentaram problemas de desenvolvimento motor. Para os suruwah\u00e1, qualquer defici\u00eancia f\u00edsica ou mental \u00e9 considerada uma maldi\u00e7\u00e3o. A crian\u00e7a \u00e9 abandonada na floresta, atingida com uma flecha envenenada ou enterrada viva. Os pr\u00f3prios pais t\u00eam o dever de sacrificar a crian\u00e7a pelo bem da tribo.<\/p>\n<p>Bujini sofreu muito com a press\u00e3o dentro da aldeia, os olhares atravessados, o desprezo geral. O desfecho era previs\u00edvel. Bujini e seu marido, sem coragem de matar as crian\u00e7as, preferiram se suicidar. Ap\u00f3s o funeral, o irm\u00e3o mais velho se viu for\u00e7ado a cumprir a maldita tarefa de enterrar seus irm\u00e3os deficientes. O menino, que tinha cerca de cinco anos de idade, e a irm\u00e3 de pouco mais de dois anos, foram enterrados vivos. Mas a menina foi mais forte. Gritou tanto que algu\u00e9m resolveu resgat\u00e1-la do buraco. A partir desse momento, ela sobreviveu por tr\u00eas anos, sendo considerada um ser sem alma, condenado a abusos f\u00edsicos e psicol\u00f3gicos, a beber \u00e1gua de po\u00e7as e se alimentar de lixo, insetos, casca de \u00e1rvores. S\u00f3 n\u00e3o morreu porque um de seus irm\u00e3os, o Bibi, o mesmo que a resgatara da cova, dividia com ela os restos de comida que conseguia juntar.<\/p>\n<p>Foram tr\u00eas anos de total abandono. Finalmente Bibi, percebendo que ela ia morrer a qualquer momento, decidiu entreg\u00e1-la em nossas m\u00e3os. Quando come\u00e7amos a cuidar dela, ela tinha cinco anos, mas pesava apenas 7 sete quilos e media 69 cent\u00edmetros. Ela n\u00e3o andava, n\u00e3o falava, e n\u00e3o tinha nenhuma express\u00e3o facial. O corpinho dela estava cheio de feridas devido \u00e0s constantes agress\u00f5es \u2013 facadas, flechadas, queimaduras e ao severo estado de desnutri\u00e7\u00e3o. \u00c0 medida que eu ia tratando as feridas f\u00edsicas, fui me apegando \u00e0quela menina sem nome \u2013 pejorativamente apelidada de \u201cJeweke\u201d, que significa pequena.<\/p>\n<p>Numa tarde, enquanto cuidava dela, eu me lembrei que sua m\u00e3e gostava de cham\u00e1-la de \u201cHakani\u201d, que significa sorriso. Isso porque, quando beb\u00ea, ela tinha o rostinho constantemente iluminado por seus sorrisos e sua alegria. Agora ali estava ela, com uma express\u00e3o totalmente dura e apagada, incapaz de expressar qualquer rea\u00e7\u00e3o. Naquele momento eu senti muita pena. Olhei nos olhos dela e apenas sussurrei \u201cHakani\u201d.<\/p>\n<p>Fiquei surpresa com o que vi. Pela primeira vez ela olhou nos meus olhos e seus olhinhos pretos brilharam. Meu cora\u00e7\u00e3o deu um salto e eu imediatamente entendi o que se passava. Olhei nos olhos dela e falei, num suruwah\u00e1 bem firme, mas cheio de ternura. \u201cO seu nome n\u00e3o \u00e9 Jeweke, voc\u00ea \u00e9 a Hakani e eu adoro voc\u00ea!\u201d Ela olhou para mim e retribuiu com seu primeiro sorriso, ainda t\u00edmido, iluminando seu rostinho magro e sofrido. Naquele momento, entendi que n\u00e3o estava ali apenas para tratar suas feridas f\u00edsicas, mas tamb\u00e9m as profundas feridas e cicatrizes de sua alma. Ent\u00e3o aconteceu, estava estabelecida a conex\u00e3o, estava aberto o caminho. Agora \u00e9ramos m\u00e3e e filha, amigas e c\u00famplices. Nada poderia nos separar. E eu decidi que iria lutar pela vida da Hakani.<\/p>\n<p>Conhecendo as fal\u00e1cias do indigenismo brasileiro, Suzuki e eu sab\u00edamos desde o in\u00edcio que o processo de ado\u00e7\u00e3o n\u00e3o seria f\u00e1cil. Sab\u00edamos que, como ind\u00edgena de uma tribo semi-isolada, Hakani seria tratada como uma esp\u00e9cie de criatura n\u00e3o-humana. Sab\u00edamos que o suposto \u201cdireito da comunidade\u201d de ter sua lei pr\u00f3pria seria evocado. Mas est\u00e1vamos decididos e o primeiro desafio seria conseguir retir\u00e1-la da \u00e1rea ind\u00edgena. Atrav\u00e9s do sistema de radiofonia da aldeia, pedimos insistentemente a autoriza\u00e7\u00e3o da FUNASA para o resgate, mas eles achavam que n\u00e3o dever\u00edamos interferir. Como era um caso que envolvia uma quest\u00e3o cultural, os t\u00e9cnicos de sa\u00fade precisavam de uma resposta da Coordena\u00e7\u00e3o Nacional de Sa\u00fade Ind\u00edgena, em Bras\u00edlia, que nunca vinha. Finalmente, depois de um m\u00eas de insist\u00eancia e muita press\u00e3o, conseguimos a autoriza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Logo que chegou na cidade, Hakani teve que ser internada devido ao estado de profunda desnutri\u00e7\u00e3o. Em poucas semanas descobrimos que al\u00e9m da desnutri\u00e7\u00e3o ela sofria de raquitismo e de hipotireoidismo cong\u00eanito. O tratamento foi intensivo e absorveu a maior parte de nosso tempo e energia durante o primeiro ano. Mas a resposta de Hakani foi formid\u00e1vel &#8211; logo ela come\u00e7ou a andar, falar, cantar e fazer bagun\u00e7a. O senso de humor e a alegria da Hakani explodiam a cada dia e contagiavam todos que se aproximavam. A adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 vida na cidade foi autom\u00e1tica \u2013 era evidente o prazer que ela sentia ao realizar rotinas simples como se sentar \u00e0 mesa e comer uma refei\u00e7\u00e3o em fam\u00edlia com seguran\u00e7a. Entre uma colherada e outra seus olhinhos pretos nos procuravam com gratid\u00e3o e entusiasmo.<\/p>\n<p>A batalha legal para adot\u00e1-la foi enorme. Foram cinco anos de burocracia, de desinteresse, de relat\u00f3rios contr\u00e1rios \u00e0 ado\u00e7\u00e3o. O Minist\u00e9rio P\u00fablico chegou e emitir um documento recomendando \u00e0 FUNAI que retirasse Hakani de nossa tutela e a \u201cdevolvesse\u201d \u00e0 aldeia. Um dos laudos antropol\u00f3gicos da \u00e9poca declara que preservar a vida de Hakani constitu\u00eda uma amea\u00e7a \u00e0 cultura suruwah\u00e1, uma interfer\u00eancia em uma \u201cpr\u00e1tica cultural repleta de significados\u201d. Impregnados de um indigenismo idealista e caricato, esses antrop\u00f3logos priorizavam a preserva\u00e7\u00e3o das tradi\u00e7\u00f5es culturais a qualquer pre\u00e7o, mesmo que isso implicasse em viola\u00e7\u00e3o um direito humano fundamental. Agindo assim, eles revelam uma absurda vis\u00e3o distorcida do ind\u00edgena, a sua coisifica\u00e7\u00e3o \u2013 ao inv\u00e9s de cidad\u00e3os, eles s\u00e3o tratados como animais ex\u00f3ticos em risco de extin\u00e7\u00e3o. A bizarrra preserva\u00e7\u00e3o do zool\u00f3gico humano perdido no meio da floresta amaz\u00f4nica \u00e9 muito mais importante que o pr\u00f3prio ser humano. Gra\u00e7as a Deus a ado\u00e7\u00e3o de Hakani acabou sendo conclu\u00edda, quando o Dr. Waldecy Castellar Citon, Juiz da Inf\u00e2ncia de Porto Velho, decidiu trat\u00e1-la como gente. \u201cAntes de ser \u00edndia ela \u00e9 uma crian\u00e7a\u201d, foi o que ele declarou durante o processo.<\/p>\n<p>Hakani mudou nossa hist\u00f3ria, e nos inspirou a ajudar outras crian\u00e7as ind\u00edgenas em risco de infantic\u00eddio. Hoje ela tem 12 anos. \u00c9 uma menina linda, alegre, comunicativa. Estuda numa escola regular, l\u00ea, escreve e \u00e9 excelente desenhista. Viaja por diversos pa\u00edses e j\u00e1 esteve at\u00e9 na sede da ONU em Nova York. J\u00e1 existe inclusive um document\u00e1rio lan\u00e7ado nos Estados Unidos contando sua hist\u00f3ria. \u00c0 medida que sua hist\u00f3ria foi se tornando conhecida, passamos a ser procurados por m\u00e3es e pais ind\u00edgenas de diversas etnias. Eles querem ajuda para salvar seus filhos do sacrif\u00edcio.<\/p>\n<p>Movidos pela solidariedade a essas fam\u00edlias, criamos a organiza\u00e7\u00e3o ATINI (<a href=\"https:\/\/www.atini.org.br\/\">www.atini.org.br<\/a>), que se dedica a apoiar a luta de ind\u00edgenas que se posicionam contra o infantic\u00eddio. Hoje atendemos ind\u00edgenas de diversas etnias. S\u00e3o fam\u00edlias que tiveram que sair da aldeia para salvar a vida de crian\u00e7as consideradas indesejadas, imperfeitas ou amaldi\u00e7oadas, g\u00eameos, trig\u00eameos, filhos de m\u00e3e solteira, ou deficientes f\u00edsicos ou mentais.<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s da ATINI a sociedade brasileira est\u00e1 come\u00e7ando a tomar conhecimento do drama e do sofrimento que a pr\u00e1tica do infantic\u00eddio causa nas aldeias. As pessoas est\u00e3o come\u00e7ando a pensar no ind\u00edgena com mais humanidade, com mais sensibilidade. Aos poucos a id\u00e9ia do \u00edndio como simples objeto de curiosidade passa a ser substitu\u00edda pela verdade simples de que, apesar das diferen\u00e7as culturais e hist\u00f3ricas, eles s\u00e3o pessoas como n\u00f3s, sujeitas aos mesmos sentimentos. Atrav\u00e9s da ATINI, nossa sociedade tem a oportunidade de ser solid\u00e1ria com os povos ind\u00edgenas, atrav\u00e9s do trabalho volunt\u00e1rio ou de ades\u00e3o ao um programa de apadrinhamento. Qualquer pessoa pode apadrinhar uma crian\u00e7a ind\u00edgena sobrevivente de infantic\u00eddio, e assim ajudar a garantir seu direito \u00e0 vida, ao tratamento m\u00e9dico, \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, a um abrigo seguro, \u00e0 dignidade enfim. Com programas desse tipo, podemos evitar que hist\u00f3rias tristes como a da Bujini se repitam \u2013 uma m\u00e3e obrigada a dar fim \u00e0 pr\u00f3pria vida por n\u00e3o ter coragem de matar sua filha.<\/p>\n<p>Marcia Suzuki, Junho de 2008<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu estava na aldeia quando ela nasceu. Eu, uma ling\u00fcista carioca tentando analisar o sistema gramatical de uma l\u00edngua desconhecida, e ao mesmo tempo tentando sobreviver no meio de uma tribo remota do Amazonas. Meu marido, um ling\u00fcista descendente de japon\u00eas com dotes art\u00edsticos, mas que parecia perfeitamente adaptado \u00e0 vida na floresta. 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