{"id":670,"date":"2009-11-24T16:06:00","date_gmt":"2009-11-24T19:06:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.atini.org.br\/2009_11_01_archive-html9219575319274660732\/"},"modified":"2019-01-08T10:35:36","modified_gmt":"2019-01-08T13:35:36","slug":"nao-matem-nossas-criancas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.atini.org.br\/en\/nao-matem-nossas-criancas\/","title":{"rendered":"N\u00e3o matem nossas crian\u00e7as"},"content":{"rendered":"<p><strong>Document\u00e1rio denuncia o infantic\u00eddio praticado por tribos ind\u00edgenas. Os pr\u00f3prios \u00edndios t\u00eam se colocado contra a pr\u00e1tica e pedem ajuda, mas a Funai se omite.<\/strong><\/p>\n<p>Em julho de 2008, defensores de um projeto de lei que protege crian\u00e7as ind\u00edgenas portadoras de defici\u00eancia e que poderiam ser v\u00edtimas de infantic\u00eddio fizeram uma manifesta\u00e7\u00e3o no Rio de Janeiro<\/p>\n<p>Ind\u00edgena por parte de pai, Sandra Terena ouvia-o desde pequena falar sobre a pr\u00e1tica do infantic\u00eddio em diferentes aldeias do pa\u00eds, mas s\u00f3 se deu conta da gravidade do assunto j\u00e1 adulta. Quando h\u00e1 quase dois anos uma ONG brasileira e uma entidade evang\u00e9lica dos Estados Unidos causaram furor internacional com um docudrama sobre a morte de crian\u00e7as nas tribos amaz\u00f4nicas, Sandra j\u00e1 produzia seu pr\u00f3prio filme. Por fim, Quebrando o sil\u00eancio, document\u00e1rio de 30 minutos, resultou do trabalho volunt\u00e1rio de cinco pessoas e de 80 horas de grava\u00e7\u00f5es ao longo de tr\u00eas anos em sete aldeias do pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u201cEu pensava que matar crian\u00e7as era uma pr\u00e1tica do passado, mas descobri que meus parentes, em algumas aldeias, ainda fazem isso\u201d, lamenta Sandra, que na l\u00edngua de sua tribo se chama Aliet\u00e9. \u201cInocentes que n\u00e3o t\u00eam chance de escolher viver s\u00e3o sacrificados. Todo mundo sofre: sofre o pai, sofre a m\u00e3e, a crian\u00e7a e quem luta para que a crian\u00e7a n\u00e3o morra\u201d, diz. Mas h\u00e1 um movimento contr\u00e1rio aos costumes: \u201choje tem parentes que est\u00e3o escolhendo vida para as nossas crian\u00e7as.\u201d A partir dessa constata\u00e7\u00e3o, Sandra apresentou o projeto ao casal de cinegrafistas Andr\u00e9 e Cristina Barbosa, que coletou depoimentos de ind\u00edgenas no curso de quase tr\u00eas anos.<\/p>\n<p>O document\u00e1rio traz declara\u00e7\u00f5es de representantes de 12 et\u00ad\u00adnias contr\u00e1rias \u00e0 pr\u00e1tica do infantic\u00eddio, al\u00e9m do relato de sobreviventes e de pais que fugiram da aldeia para salvar os filhos. Crian\u00ad\u00ad\u00e7as indesejadas s\u00e3o condenadas \u00e0 morte por nascerem com defici\u00eancia f\u00edsica ou mental, serem g\u00eameas, filhas de m\u00e3e solteira ou tidas como portadoras de azar para a comunidade. S\u00e3o enterradas vivas, sufocadas com folhas, envenenadas ou abandonadas para morrer na floresta. A Atini \u2013 voz pela vida, organiza\u00e7\u00e3o sem fins lucrativos sediada em Bra\u00ad\u00ads\u00edlia que atua na defesa do direito das crian\u00e7as ind\u00edgenas, identificou 18 etnias no pa\u00eds onde h\u00e1 essa pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 dados confi\u00e1veis sobre infantic\u00eddio, e a Funda\u00e7\u00e3o Na\u00ad\u00adcional do \u00cdndio (Funai) diz se tratar de casos isolados, inexpressivos para justificar uma pol\u00edtica de Estado. As 18 entidades que subscrevem o site www.hakani.org endossam dados que de\u00ad\u00admons\u00ad\u00adtram ser essa uma pr\u00e1tica mais comum do que a Funai admite. \u201cMuitas das mortes por infantic\u00eddio v\u00eam mascaradas nos dados oficiais como morte por desnutri\u00e7\u00e3o ou por outras causas misteriosas\u201d.<\/p>\n<p>De acordo com essas entidades, encabe\u00e7adas pela Atini, pesquisa realizada por Rachel Alc\u00e2ntara, da Universidade de Bras\u00edlia, mostra que s\u00f3 no Parque Xingu s\u00e3o assassinadas cerca de 30 crian\u00e7as todos os anos. E de acordo com o levantamento feito pelo m\u00e9dico sanitarista Marcos Pellegrini, que at\u00e9 2006 coordenava as a\u00e7\u00f5es do Distrito Sanit\u00e1rio Ianom\u00e2mi, em Roraima, 98 crian\u00e7as ind\u00edgenas foram assassinadas pelas m\u00e3es ou por algu\u00e9m da tribo em 2004. \u201cEm 2003 foram 68, fazendo dessa pr\u00e1tica cultural a principal causa de mortalidade entre os ianom\u00e2mi\u201d, destaca o site.<\/p>\n<p>\u201cTenho acompanhado essa situa\u00e7\u00e3o do infantic\u00eddio. Isso n\u00e3o \u00e9 de hoje que ou\u00e7o falar. Vejo em v\u00e1rias comunidades. Alguns rituais s\u00e3o diferentes, em cada povo, mas na verdade tudo acaba na morte de uma crian\u00e7a\u201d, diz Carlos Terena, organizador dos Jogos Ind\u00edgenas. \u201cNosso povo jaminawa matava, e \u00e0s vezes enterrava, assim, vivo mesmo. \u00c0s vezes pegava no nariz deles&#8230; matava\u201d, conta uma \u00edndia dessa etnia. \u201cCoisa triste mesmo. Que foi enterrado pequeno, rapazinho j\u00e1. N\u00e3o era mais crian\u00e7a, n\u00e3o. Eu mesmo vi isso\u201d, relata no document\u00e1rio o cacique Aritana Yawalapiti.<\/p>\n<p>\u201cSe crian\u00e7a nasce aqui dentro da comunidade, eles enterram\u201d, diz Paltu Kamayur\u00e1, que teve um dos filhos g\u00eameos sepultado vivo. \u201cAt\u00e9 hoje n\u00e3o esque\u00e7o, porque estou vendo o menino, o crescimento dele, a\u00ed eu penso no outro tamb\u00e9m. Agora meu pensamento n\u00e3o \u00e9 mais como o deles, n\u00e3o \u00e9 mais pensamento de antrop\u00f3logo. Eles falam: \u2018Deixa esses \u00edndios viverem assim. Essa \u00e9 a cultura deles\u2019. N\u00e3o \u00e9. Porque a cultura n\u00e3o para. Ela anda. O pensamento tamb\u00e9m anda, igual \u00e0 cultura\u201d, observa.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 quem diga que essa pr\u00e1tica fa\u00e7a parte da nossa cultura, e que por isso deve ser mantida. Mas desde quando uma cultura para no tempo? Por que a gente tem de continuar com uma pr\u00e1tica que nos faz sofrer, que nos faz mal, que nos causa remorso? Vida n\u00e3o combina com morte. Ser\u00e1 que para manter nossa cultura viva precisamos matar nossas crian\u00e7as?\u201d, questiona Sandra no document\u00e1rio. \u201cMas lideran\u00e7as ind\u00edgenas t\u00eam levantado a voz contra a pr\u00e1tica do infantic\u00eddio\u201d, continua. Foi por essa raz\u00e3o que ela decidiu usar a forma\u00e7\u00e3o em Jornalismo em favor dos povos ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>Sandra agora busca apoio financeiro e log\u00edstico para exibir o document\u00e1rio nas aldeias do pa\u00eds. Ele j\u00e1 foi exibido em setembro no Xingu, durante evento de mulheres ind\u00edgenas. Quebrando o sil\u00eancio \u00e9 um dos tr\u00eas finalistas na categoria \u201cReduzir a mortalidade infantil\u201d do pr\u00eamio Volun\u00ad\u00adtariado Trans\u00adformador, promovido pelo Centro de A\u00e7\u00e3o Vo\u00ad\u00adlun\u00ad\u00adt\u00e1ria de Cu\u00ad\u00adri\u00ad\u00adtiba. A cerim\u00f4nia de premia\u00e7\u00e3o ser\u00e1 amanh\u00e3, no Teatro Positivo.<\/p>\n<p><strong>Os sobreviventes<\/strong><br \/>\nMarit\u00e9 e Tximagu Ikpeng tiveram de abandonar a aldeia, no Xingu, para salvar os trig\u00eameos. No document\u00e1rio <a href=\"https:\/\/www.atini.org.br\/quebrando-silencio\/\">Quebrando o Sil\u00eancio<\/a>, Marit\u00e9 relata como \u00e9 o in\u00ad\u00adfantic\u00eddio entre seu povo. \u201cNasceu, j\u00e1 faz o buraco, j\u00e1 fica tudo preparado. Quando nasce, enterram a crian\u00e7a. Enterram vi\u00ad\u00advo ou quebram no meio\u201d, descreve. \u201cA gente n\u00e3o queria perder os beb\u00eas. A gente ama as crian\u00e7as\u201d, diz. Por isso fugiram. \u201cSe eu tinha de seguir as regras da cultura, n\u00e3o era bom para mim. Ent\u00e3o falei: \u2018vou quebrar essa regra e tenho que seguir outro caminho\u2019\u201d. Ago\u00ad\u00adra, sonha cursar Medi\u00adcina pa\u00ad\u00adra ajudar a aldeia, inclusive a mudar o pensamento.<\/p>\n<p>O cacique Tabata Kuikuro tamb\u00e9m abandonou a aldeia pa\u00ad\u00adra criar g\u00eameos. \u201cComo posso deixar meu filho? Algu\u00e9m vai fa\u00ad\u00adzer mal para ele, matando ele\u201d, diz. \u201cEles s\u00e3o meus filhos, n\u00e3o s\u00e3o bichos\u201d. Nem sempre o socorro chega a tempo. Marcos Mayo\u00adru\u00ad\u00adna sobreviveu, mas o irm\u00e3o foi queimado vivo aos 10 anos de ida\u00ad\u00adde. \u201cN\u00f3s \u00e9ramos g\u00eameos, e o ca\u00ad\u00adcique Jos\u00e9 interpretou errado. Mas meu pr\u00f3prio povo me condenou \u00e0 morte\u201d, diz. \u201cTodos os ind\u00edgenas que matam g\u00eameos ou deficientes sofrem depois que analisam por que mataram\u201d. Adotado por um sargento do Ex\u00e9rcito, Marcos est\u00e1 h\u00e1 oito anos no Rio de Janeiro e faz faculdade de Enfermagem.<\/p>\n<p>O infantic\u00eddio \u00e9 particularmente doloroso para as mulheres. L\u00facia Bakairi salvou o irm\u00e3o do infantic\u00eddio ao enfrentar a m\u00e3e. \u201cMinha m\u00e3e lutou para mat\u00e1-lo. Ela saiu, foi embora para o mato. De l\u00e1 ela veio para falar assim: \u2018\u00d4 crian\u00e7a, vai l\u00e1 no mato, vai enterrar aquela crian\u00e7a\u2019\u201d, relata. At\u00e9 mesmo quem n\u00e3o tem grau de parentesco se sensibiliza com os condenados. \u201cEssa aqui \u00e9 minha cria\u00e7\u00e3o\u201d, diz Kaiana Waur\u00e1, mostrando no colo a filha adotiva. \u201cA m\u00e3e queria enterr\u00e1-la. A tia dela a levou para a casa da av\u00f3. A\u00ed ficou cinco dias sem tomar leite. A\u00ed, eu falei pro meu marido que vou criar ela\u201d, conta. (MK)<\/p>\n<p><strong>Document\u00e1rio criou pol\u00eamica internacional<\/strong><br \/>\nH\u00e1 um ano e meio uma ONG brasileira e uma organiza\u00e7\u00e3o evang\u00e9lica norte-americana causaram uma discuss\u00e3o internacional ao produzir um misto de document\u00e1rio e drama para uma campanha contra o infantic\u00eddio nas tribos da Amaz\u00f4nia. O v\u00eddeo enfureceu a Funda\u00e7\u00e3o Nacional do \u00cdndio (Funai) e a Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Antropologia (ABA) ao retratar a hist\u00f3ria de Hakani, menina da etnia Suruwaha, uma das tribos \u00e0s margens do Rio Purus que ainda praticam o ritual.<\/p>\n<p><strong>Lideran\u00e7as ind\u00edgenas pedem ajuda<\/strong><br \/>\nV\u00e1rias lideran\u00e7as ind\u00edgenas fazem ecoar pedidos de socorro ao longo de Quebrando o Sil\u00eancio. \u201cA crian\u00e7a \u00e9 o futuro dos ind\u00edgenas. Devemos investir na vida deles. Devemos dar o direito \u00e0 vida. Que ela viva, cres\u00e7a e se torne um ind\u00edgena que ame sua cultura e que saiba como trabalhar dentro da sua cultura e dentro do Brasil\u201d, diz Eli Ticuna, vice-presidente do Conselho Nacional de Pastores e L\u00edderes Evang\u00e9licos. \u201c\u00c9 necess\u00e1rio que algu\u00e9m corajoso se levante, para interferir nessas pr\u00e1ticas culturais que s\u00e3o prejudiciais para a pessoa humana\u201d, argumenta.<\/p>\n<p>\u201cN\u00f3s temos \u00edndios que recebem muita influ\u00eancia dos antrop\u00f3logos, e acham que os costumes s\u00e3o intoc\u00e1veis\u201d, diz \u00c1lvaro Tucano, l\u00edder tucano no Amazonas. \u201cO que \u00e9 errado n\u00f3s temos de corrigir. N\u00f3s temos de ter a capacidade de melhorar o nosso comportamento. E n\u00e3o continuar achando que aquele paj\u00e9 est\u00e1 certo quando ele vai dar veneno s\u00f3 porque ele est\u00e1 fazendo bem para a sobreviv\u00eancia do costume. N\u00e3o. Ele est\u00e1 errado\u201d, enfatiza. \u201cAcho que a gente tem de saber modificar o nosso povo, consertando os erros internos.\u201d<\/p>\n<p>\u201cA cultura \u00e9 din\u00e2mica. A cada momento muda a cultura, de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o. Isso o antrop\u00f3logo tem de entender, que a gente n\u00e3o perdeu a l\u00edngua\u201d, diz Marcos Mayoruna. \u201cA gente n\u00e3o tem nada contra o antrop\u00f3logo, s\u00f3 que ele interpreta errado. Alguns atrapalham, por exemplo, indigenista, Funai. Quero que a Funai entenda que tem de haver a mudan\u00e7a\u201d, completa. (MK)<\/p>\n<p><strong>VIDA E CIDADANIA &#8211; Curitiba &#8211; 23\/11\/2009 | Por Mauri K\u00f6nig<\/strong><br \/>\n<strong>GAZETA DO POVO<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Document\u00e1rio denuncia o infantic\u00eddio praticado por tribos ind\u00edgenas. Os pr\u00f3prios \u00edndios t\u00eam se colocado contra a pr\u00e1tica e pedem ajuda, mas a Funai se omite. 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