{"id":701,"date":"2008-08-01T07:23:47","date_gmt":"2008-08-01T10:23:47","guid":{"rendered":"http:\/\/www.atini.org.br\/?p=701"},"modified":"2019-01-08T07:24:48","modified_gmt":"2019-01-08T10:24:48","slug":"choque-de-culturas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.atini.org.br\/en\/choque-de-culturas\/","title":{"rendered":"CHOQUE DE CULTURAS"},"content":{"rendered":"<p>Publicada no jornal Correio Braziliense (23\/09), a mat\u00e9ria <strong>Choque de Culturas<\/strong> critica a adapta\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as ind\u00edgenas ligadas \u00e0 Atini \u00e0s escolas de Bras\u00edlia. <em>&#8220;O DF, formalmente, n\u00e3o possui popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena, o que desobriga a Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o de manter escolas bil\u00edng\u00fces.&#8221;<\/em> Mas estima-se que popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena em Bras\u00edlia se aproxima a 8 mil pessoas &#8211; onde est\u00e3o as outras crian\u00e7as? onde est\u00e1 o direito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o? onde est\u00e1 a inclus\u00e3o social?<\/p>\n<p><strong>CHOQUE DE CULTURAS<\/strong><br \/>\nErica Montenegro &#8211; Correio Braziliense<\/p>\n<p>Amal\u00e9, 4 anos, brinca com os colegas de pular corda. Todos est\u00e3o descal\u00e7os, menos ele. Kanuayru,10 anos, guarda o material escolar em uma mochila cor- de-rosa da Barbie. Makaruti, 12 anos, arrepiou o cabelo, ganhou o apelido &#8220;Maka&#8221; e o amor plat\u00f4nico das meninas. Desde o in\u00edcio do ano, pelo menos quatro escolas da rede p\u00fablica brasiliense convivem com \u00edndios entre seus estudantes. A adapta\u00e7\u00e3o deles \u00e0 sala de aula est\u00e1 exclusivamente nas m\u00e3os dos professores, j\u00e1 que n\u00e3o h\u00e1 projeto pedag\u00f3gico diferenciado para atend\u00ea-los.<\/p>\n<p>A diretriz do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o (MEC) \u00e9 que os \u00edndios sejam alfabetizados em escolas bil\u00edng\u00fces. Nelas, o professor costuma pertencer \u00e0 mesma etnia dos alunos e, portanto, compartilha com eles a l\u00edngua, as tradi\u00e7\u00f5es e os costumes. O modelo foi pensado para que a popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena tenha acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, sem que o ensino promova a acultura\u00e7\u00e3o (perda dos valores tradicionais). &#8220;S\u00e3o escolas completamente diferentes. O m\u00e9todo de ensino se adapta \u00e0 cultura de cada etnia. Os conte\u00fados aproveitam as viv\u00eancias&#8221;, explica Gersem Baniwa, coordenador geral de Educa\u00e7\u00e3o Escolar Ind\u00edgena do MEC.<\/p>\n<p>A educa\u00e7\u00e3o que Amal\u00e9, Kanuayaru, Makaruti e os outros \u00edndios est\u00e3o recebendo n\u00e3o tem nada a ver com a que \u00e9 defendida pelo MEC. Nas salas de aula brasilienses, eles aprendem o que os colegas urbanos aprendem. As regras constru\u00eddas na nossa sociedade passam a ser os par\u00e2metros de comportamento seguidos por eles. Nesse sentido, o pequeno Amal\u00e9 cal\u00e7ado quando todos os outros est\u00e3o descal\u00e7os \u00e9 significativo. &#8220;\u00c9 um sinal de que ele n\u00e3o entendeu o novo c\u00f3digo ao qual est\u00e1 sendo submetido. Algu\u00e9m disse que ele deve andar cal\u00e7ado, ent\u00e3o, ele n\u00e3o arrisca tirar o t\u00eanis em nenhum ocasi\u00e3o&#8221;, interpreta o antrop\u00f3logo M\u00e9rcio Pereira, ex-presidente da Funda\u00e7\u00e3o Nacional do \u00cdndio (Funai).<\/p>\n<p><strong>Etnias<\/strong><br \/>\nOs professores da Escola Classe da Granja do Torto se esfor\u00e7am para incluir os novos alunos. &#8220;Tento integrar, pe\u00e7o que eles contem sobre os lugares de onde vieram&#8221;, relata a professora Rosane Brito, respons\u00e1vel pela turma da 1\u00aa s\u00e9rie B. Bem-intencionada, ela procurou informa\u00e7\u00f5es na internet sobre as tr\u00eas etnias das quais tem representantes em sala de aula: Suruwaha, Ticuna e Kamayur\u00e1. &#8220;\u00c9 um trabalho desafiador. Estou gostando&#8221;, conta Rosane. Nem a diferen\u00e7a de idade entre Makaruti e os outros colegas \u2014 aos 12 anos, ele tem pelo menos quatro anos a mais que a m\u00e9dia da turma \u2014 incomoda. &#8220;Ele \u00e9 muito d\u00f3cil, ajuda a cuidar das crian\u00e7as, se sente como pai delas&#8221;, relata a professora Rosane. Na Escola Classe da Granja do Torto, h\u00e1 nove alunos \u00edndios.<\/p>\n<p>Na Escola Classe da 316 Norte, onde estudam outros dois \u00edndios, a experi\u00eancia tem sido mais complicada. A diretora Marilda Pereira, 67 anos, chegou a pedir ajuda ao Minist\u00e9rio P\u00fablico para lidar com o caso de um garoto que, aos 13 anos, est\u00e1 matriculado na 1\u00aa s\u00e9rie. &#8220;Ele ainda n\u00e3o fala o portugu\u00eas, n\u00e3o respeita a professora, n\u00e3o interage com os colegas&#8221;, conta ela, que em 48 anos de Funda\u00e7\u00e3o Educacional nunca tinha tido um aluno \u00edndio.<\/p>\n<p>Segundo Marilda Pereira, o aluno est\u00e1 sempre com um peda\u00e7o de pau na m\u00e3o e fala muito em flechas. &#8220;Ano que vem ele vai para o supletivo, estamos fazendo o poss\u00edvel para melhorar o portugu\u00eas dele&#8221;, conta. A professora do estudante n\u00e3o quis falar com o Correio. O rapaz \u00e9 da etnia Suruwaha, tribo que vive em uma \u00e1rea isolada do Amazonas e mant\u00e9m pouco contato com os brancos. Aos 13 anos, os suruwaha j\u00e1 est\u00e3o se preparando para casar.<\/p>\n<p>Longe do passado, Amal\u00e9 tem muitos amigos no Jardim de Inf\u00e2ncia da 312 Norte. Durante a recrea\u00e7\u00e3o, n\u00e3o p\u00e1ra de brincar com os coleguinhas. Quando chegou, em fevereiro, misturava o portugu\u00eas com a l\u00edngua Kamayur\u00e1 e contava hist\u00f3rias sobre a aldeia, localizada no Parque Nacional do Xingu. Com o tempo, est\u00e1 se afastando do passado. &#8220;N\u00e3o adianta insistir, ele diz que esqueceu o kamayur\u00e1&#8221;, relata a professora M\u00e1rcia Rodrigues.<\/p>\n<p>Os alunos de Rosane, da Granja do Torto, tamb\u00e9m dizem esqueci quando solicitados a falarem suas l\u00ednguas nativas. S\u00e3o extremamente t\u00edmidos, exceto Eli, ticuna de 7 anos de idade, que est\u00e1 na idade correta e n\u00e3o tem defici\u00eancias de aprendizado.<\/p>\n<p>Para Gersem Baniwa, o esqueci das crian\u00e7as e adolescentes repete a estrat\u00e9gia de sobreviv\u00eancia que os povos ind\u00edgenas adotaram durante quase toda a hist\u00f3ria do Brasil. &#8220;Ser \u00edndio era p\u00e9ssimo antes da Constitui\u00e7\u00e3o de 1988. Fing\u00edamos que er\u00e1mos brancos porque n\u00e3o t\u00ednhamos direitos &#8220;. Dizer que n\u00e3o lembram mais das aldeias seria a maneira de os estudantes se enturmarem com os colegas.<\/p>\n<p>O DF, formalmente, n\u00e3o possui popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena, o que desobriga a Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o de manter escolas bil\u00edng\u00fces. A subsecret\u00e1ria de Planejamento e Inspe\u00e7\u00e3o de Ensino, Solange Castro, reconhece que existe a necessidade de especializa\u00e7\u00e3o para atender os suruwahas, ticunas e kamayur\u00e1s que est\u00e3o entrando na rede. &#8220;Sem especializa\u00e7\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 como fazer uma adapta\u00e7\u00e3o sem traumas. Esses meninos t\u00eam direito a educa\u00e7\u00e3o. Mas temos de buscar sa\u00eddas para oferec\u00ea-la da melhor maneira poss\u00edvel.&#8221;<\/p>\n<p><strong>Luta contra o infantic\u00eddio<\/strong><br \/>\nOs \u00edndios estudantes do DF t\u00eam em comum o fato de estarem ligados \u00e0 Atini \u2014 Voz pela Vida, uma ONG que luta contra a pr\u00e1tica de infantic\u00eddio nas aldeias. Criada em 2006 pelos mission\u00e1rios evang\u00e9licos M\u00e1rcia e Edson Suzuki, a Atini presta apoio aos \u00edndios que querem ir contra \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es de controle populacional de suas tribos.<\/p>\n<p>O pequeno Amal\u00e9, por exemplo, era filho de m\u00e3e solteira e seria enterrado vivo n\u00e3o fosse a \u00edndia Kamiru adot\u00e1-lo como filho. A crian\u00e7a apresentou problemas de sa\u00fade e precisou vir a Bras\u00edlia para tratamento. A partir de ent\u00e3o, come\u00e7ou a viver com Kamiru e dois irm\u00e3os em uma das quatro casas que a Atini mant\u00e9m no DF. A ONG sobrevive por meio de doa\u00e7\u00f5es de igrejas evang\u00e9licas e pessoas f\u00edsicas.<\/p>\n<p>M\u00e1rcia Suzuki, presidente da Atini, reconhece que os meninos \u00edndios mudam os h\u00e1bitos ao entrar na rede escolar. &#8220;Alguns apresentam dificuldades, mas a maioria reage bem&#8221;, garante. O rapaz suruwaha que estuda na 316 Norte est\u00e1 recebendo tratamento psicol\u00f3gico custeado pela ONG. &#8220;A vontade dele \u00e9 voltar para a aldeia, mas a m\u00e3e n\u00e3o quer. Acha que o estudo ser\u00e1 \u00fatil. Ele ser\u00e1 o primeiro suruwaha a falar o portugu\u00eas&#8221;, aposta M\u00e1rcia Suzuki.<\/p>\n<p><strong>Interven\u00e7\u00e3o<\/strong> Ao contr\u00e1rio dos especialistas ouvidos pela reportagem, ela n\u00e3o acredita que os meninos v\u00e3o se desvincular das aldeias por causa das experi\u00eancias \u00e0s quais est\u00e3o sendo submetidos. Na opini\u00e3o dela, eles continuar\u00e3o a valorizar a cultura de onde vieram. &#8220;Nas casas, pedimos que falem as l\u00ednguas nativas e aproximamos a alimenta\u00e7\u00e3o com o que eles comiam nas tribos&#8221;, relata.<\/p>\n<p>Apesar do car\u00e1ter humanit\u00e1rio com o qual s\u00e3o apresentadas, as a\u00e7\u00f5es da Atini s\u00e3o questionadas pela Funai. &#8220;O grupo est\u00e1 intervindo em uma realidade cultural que n\u00e3o \u00e9 a deles. Ditam o que \u00e9 certo e errado a partir de valores deles&#8221;, aponta Gustavo Menezes, coordenador de apoio pedag\u00f3gico da Funai. Antrop\u00f3logo, ele ressalta que a Funai \u00e9 a favor da vida, mas discorda de interven\u00e7\u00f5es culturais e religiosas de grupos externos \u00e0 realidade das aldeias. &#8220;Por mais que a causa pare\u00e7a importante, s\u00e3o os \u00edndios que devem se posicionar sobre dela. Qualquer opini\u00e3o que venha de fora \u00e9 preconceituosa porque est\u00e1 baseada em outro sistema de valores&#8221;, afirma Gustavo Menezes.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Publicada no jornal Correio Braziliense (23\/09), a mat\u00e9ria Choque de Culturas critica a adapta\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as ind\u00edgenas ligadas \u00e0 Atini \u00e0s escolas de Bras\u00edlia. &#8220;O DF, formalmente, n\u00e3o possui popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena, o que desobriga a Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o de manter escolas bil\u00edng\u00fces.&#8221; Mas estima-se que popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena em Bras\u00edlia se aproxima a 8 mil pessoas [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":2619,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[104,60],"tags":[162,75],"class_list":["post-701","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-media","category-news","tag-correio-braziliense","tag-press"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.atini.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/701","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.atini.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.atini.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.atini.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.atini.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=701"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.atini.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/701\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2622,"href":"https:\/\/www.atini.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/701\/revisions\/2622"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.atini.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2619"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.atini.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=701"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.atini.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=701"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.atini.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=701"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}