{"id":718,"date":"2007-10-17T18:56:00","date_gmt":"2007-10-17T21:56:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.atini.org.br\/2007_10_01_archive-html2798403733613823434\/"},"modified":"2019-01-07T19:24:55","modified_gmt":"2019-01-07T22:24:55","slug":"o-sorriso-de-hakani","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.atini.org.br\/en\/o-sorriso-de-hakani\/","title":{"rendered":"O SORRISO DE HAKANI"},"content":{"rendered":"<p>Menina suruarr\u00e1 vive seu dia de fama na escola onde estuda e fascina colegas e professores. Ela tenta esquecer os horrores que enfrentou na tribo, mas deseja rever o \u00fanico irm\u00e3o, que a salvou<\/p>\n<p>MARCELO ABREU DA EQUIPE DO CORREIO<\/p>\n<p>Ela acordou bem cedo, como de costume. Na verdade, pulou da cama. Adora ir \u00e0 escola e n\u00e3o gosta de chegar atrasada. Sabe que l\u00e1 vai encontrar as amiguinhas e a professora de quem tanto gosta. \u00c0s vezes sonha que est\u00e1 no col\u00e9gio. Mal chegou \u00e0 sala de aula e o coment\u00e1rio era um s\u00f3: a foto dela no jornal. Alguns perguntaram: &#8220;Tia, por que a Hakani saiu no jornal? Ela \u00e9 famosa? Virou artista?&#8221; Com delicadeza, Deise Boechat, a professora da 2\u00aa s\u00e9rie do Leonardo da Vinci, na 914 Norte, explicou a situa\u00e7\u00e3o para seus meninos e meninas de 7 e 8 anos de idade. Contou, com extremo cuidado, que ali estava uma hist\u00f3ria de vida. Que Hakani era uma menininha muito forte e querida por todos.<\/p>\n<p>De repente, ela mesma, a indiazinha suruarr\u00e1 \u2014 etnia que vive semi-isolada no sul da Amaz\u00f4nia \u2014, falou aos colegas: &#8220;Meus pais tomaram veneno porque n\u00e3o deram conta de cuidar de mim&#8221;. Era o bastante. Depois, todos voltaram \u00e0s atividades normais. Era hora de voltar a ser crian\u00e7a, pensar como crian\u00e7a e ter esperan\u00e7a de crian\u00e7a. O sinal do recreio lhes trouxe exatamente essa certeza. Ana Hakani dos Santos, de 12 anos, venceu os horrores da rejei\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria tribo e escapou da morte sucessivas vezes. Foi adotada aos 5 anos por um casal de mission\u00e1rios. A hist\u00f3ria foi contada na edi\u00e7\u00e3o de ontem do Correio Braziliense.<\/p>\n<p>No meio da tarde, de mai\u00f4 com a cara da Minnie estampada na frente, e usando \u00f3culos de prote\u00e7\u00e3o solar, Hakani foi \u00e0 aula de nata\u00e7\u00e3o. Ela adora nadar. Parece um peixe dentro d\u2019\u00e1gua. L\u00e1 tamb\u00e9m fez novos amigos. Riu, conversou, rodopiou, correu e se jogou na piscina com cara de contentamento. O professor Tiago Drummond, 25, elogia: &#8220;A integra\u00e7\u00e3o dela com as outras crian\u00e7as \u00e9 perfeita. Ela est\u00e1 come\u00e7ando a nadar os estilos peito e costas.&#8221;<\/p>\n<p><strong>A vida em pesadelo<\/strong><br \/>\nEssa \u00e9 a parte boa e emocionante da hist\u00f3ria de Hakani. A que ela gosta de contar e lembrar. Tudo que a fez chorar, ela prefere esquecer. Como era diferente das outras crian\u00e7as \u2014 n\u00e3o falava e nem andava (o povo da tribo acreditava que ela era filha de um &#8220;esp\u00edrito mau&#8221;) \u2014, Hakani e Niawi, irm\u00e3o um ano mais velho, sofreram todo o tipo de persegui\u00e7\u00e3o. Quando ela completou dois anos de idade \u2014 e as diferen\u00e7as f\u00edsicas e motoras em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s outras crian\u00e7as ficaram mais evidentes \u2014, os pais, como ordem da tribo, teriam que mat\u00e1-la. O m\u00e9todo seria dar aos dois filhos goles de ch\u00e1 de timb\u00f3, veneno extra\u00eddo de um cip\u00f3.<\/p>\n<p>Desesperados com a obriga\u00e7\u00e3o, acabaram eles mesmos tomando o ch\u00e1. Morreram agonizando. Cinco crian\u00e7as ficaram \u00f3rf\u00e3s. Hakani e Niawi \u2014 ambos considerados &#8220;filhos do mau&#8221; \u2014 foram entregues aos cuidados do irm\u00e3o mais velho, Aruwaji, ent\u00e3o com 15 anos. Os dois passaram a viver longe de tudo e todos. Era como se n\u00e3o existissem. Aruwaji, ent\u00e3o, tamb\u00e9m obrigado pela tribo, teria que matar os dois irm\u00e3os. Tentou faz\u00ea-lo a golpes de porrete. Sangrando, Hakani chorou antes de ser enterrada.<\/p>\n<p>Um outro irm\u00e3o, que assistia \u00e0 cena, salvou-a. Niawi, mais fragilizado pelos golpes, n\u00e3o esbo\u00e7ou rea\u00e7\u00e3o. H\u00e1 quem diga que, horas depois, tenha escutado seu choro debaixo da cova rasa. Mesmo assim, o menininho n\u00e3o p\u00f4de ser salvo. Foi enterrado vivo. Inconformado por n\u00e3o ter completado a miss\u00e3o \u2014 para os suruarr\u00e1s matar \u00e9 obriga\u00e7\u00e3o que n\u00e3o deve deixar de ser cumprida \u2014, Aruwaji se matou tomando o ch\u00e1 do timb\u00f3.<\/p>\n<p>Mas o drama de Hakani n\u00e3o havia parado por a\u00ed. O av\u00f4 materno decidiu que ele mesmo daria um fim na neta. E para isso usou seu instrumento de ca\u00e7a. Flechou-a entre o peito e o ombro. Mesmo ferida, Hakani, mais uma vez, sobreviveu. O av\u00f4, transtornado, tomou o ch\u00e1 de timb\u00f3. A menina, que contava 5 anos, n\u00e3o andava, n\u00e3o falava e pesava cerca de 7kg, passou a ser cuidada pelo irm\u00e3o do meio. Bibi, com 9 anos e do jeito dele, cuidou de Hakani. Dava-lhe comida, banho e, para proteg\u00ea-la dos ataques de flecha, deixava-a longe do contato com as pessoas da tribo.<\/p>\n<p><strong>Um pai, uma m\u00e3e<\/strong><br \/>\nUm casal de mission\u00e1rios que fazia trabalhos com os suruarr\u00e1s soube do drama de Hakani. Edson Suzuki, paulista de 45 anos, e a mulher dele, M\u00e1rcia, carioca, 44, come\u00e7aram a luta para adotar a menina. Cinco anos depois, j\u00e1 que ningu\u00e9m da fam\u00edlia quis ficar com ela, um juiz do Juizado de Inf\u00e2ncia de Manaus sentenciou: Edson e M\u00e1rcia seriam os pais adotivos da menina. E come\u00e7ou a peregrina\u00e7\u00e3o dos pais em busca de tratamento m\u00e9dico.<\/p>\n<p>Em Porto Velho, o primeiro diagn\u00f3stico: Hakani tinha hipotireoidismo cong\u00eanito \u2014 altera\u00e7\u00e3o na produ\u00e7\u00e3o dos horm\u00f4nios do crescimento. De Porto Velho, a indiazinha foi levada ao Hospital das Cl\u00ednicas de Ribeir\u00e3o Preto (SP) para fazer exames mais detalhados. O &#8220;esp\u00edrito mau&#8221; era apenas uma desorganiza\u00e7\u00e3o neuromotora. O mesmo mal que acometera o irm\u00e3ozinho enterrado vivo.<br \/>\nCom medica\u00e7\u00e3o e alimenta\u00e7\u00e3o adequadas, Hakani come\u00e7ou a se desenvolver. Cresceu, engordou, come\u00e7ou a falar, andar e a interagir. No ano passado, desembarcou com os pais em Bras\u00edlia. Mora na Asa Norte e estuda no Col\u00e9gio Leonardo da Vinci. Tornou-se uma menina normal. Fez amiguinhos, gosta da escola, da professora, de desenhos animados (o Happy feet \u00e9 o seu favorito), e de bolo de chocolate com morango. Acostumou-se com o novo mundo que agora a cerca.<\/p>\n<p>Em janeiro, Edson e M\u00e1rcia pretendem voltar com Hakani \u00e0 tribo onde ela nasceu. Hakani fez quest\u00e3o de esquecer tudo. Mas de Bibi, o irm\u00e3o que a salvou da morte, jamais. Ele \u00e9 o \u00fanico sobrevivente da fam\u00edlia, j\u00e1 que todos tomaram o veneno. &#8220;Hakani pergunta pelo irm\u00e3o, diz que tem saudade e gostaria de rev\u00ea-lo. Temos um pouco de receio de como ela vai reagir ao voltar \u00e0 selva, mas \u00e9 um direito dela. \u00c9 importante para ela manter esse la\u00e7o&#8221;, avalia a m\u00e3e. Hakani, na l\u00edngua falada pelos \u00edndios suruarr\u00e1s, quer dizer &#8220;sorriso&#8221;. Hoje, ela carrega o nome estampado no pr\u00f3prio rosto. De uma hist\u00f3ria onde quase tudo seria improv\u00e1vel nasceu um fiapo de esperan\u00e7a. Isso, talvez, seja o verdadeiro significado do renascimento.<\/p>\n<div align=\"justify\"><em>Mat\u00e9ria da Hakani no Correio Braziliense<\/em>\u00a0\u2013\u00a0<em>de Marcelo Abreu<\/em><\/div>\n<div align=\"justify\"><em>Foto: Breno Fortes<\/em><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Menina suruarr\u00e1 vive seu dia de fama na escola onde estuda e fascina colegas e professores. Ela tenta esquecer os horrores que enfrentou na tribo, mas deseja rever o \u00fanico irm\u00e3o, que a salvou MARCELO ABREU DA EQUIPE DO CORREIO Ela acordou bem cedo, como de costume. Na verdade, pulou da cama. 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