{"id":729,"date":"2007-05-18T11:53:00","date_gmt":"2007-05-18T14:53:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.atini.org.br\/2007_05_01_archive-html5582969206563728659\/"},"modified":"2019-01-08T06:33:22","modified_gmt":"2019-01-08T09:33:22","slug":"bebes-indigenas-marcados-para-morrer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.atini.org.br\/en\/bebes-indigenas-marcados-para-morrer\/","title":{"rendered":"Beb\u00eas ind\u00edgenas, marcados para morrer"},"content":{"rendered":"<p>Beb\u00eas ind\u00edgenas, marcados para morrer<br \/>\nPor raz\u00f5es culturais, crian\u00e7as indesejadas s\u00e3o sacrificadas nas aldeias<\/p>\n<p>Por MARCELO SANTOS<\/p>\n<p>Muwaji e a beb\u00ea Iganani \/ Foto: M\u00e1rcia Suzuki<\/p>\n<p>Ainda que inaceit\u00e1vel em nossa sociedade, o assassinato de beb\u00eas indesejados \u00e9 algo t\u00e3o antigo quanto a pr\u00f3pria humanidade. At\u00e9 mesmo expoentes do pensamento grego, como Arist\u00f3teles e Plat\u00e3o, eram capazes de frases que, sem o devido cr\u00e9dito, poderiam facilmente ser atribu\u00eddas aos mais ensandecidos e vis d\u00e9spotas. No entanto, as id\u00e9ias de tais pensadores encontraram eco na antiga Roma, que apoiava moral e legalmente o infantic\u00eddio, caso se constatassem defici\u00eancias f\u00edsicas ou ps\u00edquicas.<\/p>\n<p>Embora n\u00e3o se possa supor que as id\u00e9ias dos pensadores da Antiguidade cl\u00e1ssica tenham afetado o modo de viver e agir dos \u00edndios brasileiros, fato \u00e9 que, a cada ano, centenas de crian\u00e7as s\u00e3o sacrificadas no meio da selva, por conta de tradi\u00e7\u00f5es culturais, quando ocorre por exemplo o nascimento de g\u00eameos ou de beb\u00eas com algum problema f\u00edsico.<\/p>\n<p>N\u00e3o existem n\u00fameros precisos. De acordo com a assessoria de imprensa da Funda\u00e7\u00e3o Nacional de Sa\u00fade (Funasa), cabe \u00e0 Funda\u00e7\u00e3o Nacional do \u00cdndio (Funai) identificar esses casos, uma vez que se trata de um tra\u00e7o cultural. J\u00e1 a Funai alega que os dados devem ser obtidos na Funasa, que gerencia as atividades dos distritos sanit\u00e1rios nas aldeias. O pouco que se sabe sobre o assunto prov\u00e9m de fontes como miss\u00f5es religiosas, estudos antropol\u00f3gicos ou algum coordenador de posto de Distrito Sanit\u00e1rio Especial Ind\u00edgena (DSEI) que repasse as informa\u00e7\u00f5es para a imprensa, antes que elas sejam enviadas ao Minist\u00e9rio da Sa\u00fade e l\u00e1 se transformem em &#8220;mortes por causas mal definidas&#8221; ou &#8220;externas&#8221;.<\/p>\n<p>\u00c9 o caso do m\u00e9dico sanitarista Marcos Pellegrini, que at\u00e9 2006 coordenava as a\u00e7\u00f5es do DSEI-Yanomami, em Roraima. L\u00e1, de acordo com levantamentos feitos por ele, 98 crian\u00e7as ind\u00edgenas foram assassinadas pelas m\u00e3es em 2004 (ver texto abaixo). Em 2003 foram 68, fazendo dessa pr\u00e1tica cultural a principal causa de mortalidade infantil entre os ianom\u00e2mis, uma etnia de ca\u00e7adores-agricultores formada por 28 mil ind\u00edgenas que vivem no norte da Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>&#8220;Os ianom\u00e2mis constituem o povo mais primitivo do planeta. Se uma crian\u00e7a nasce com qualquer problema f\u00edsico, eles matam. Se a m\u00e3e tiver duas meninas, por exemplo, e nascer outra, eles matam tamb\u00e9m. Trata-se de uma quest\u00e3o cultural, e n\u00f3s, da Funasa, n\u00e3o trabalhamos com isso. Todos os n\u00fameros s\u00e3o repassados para a Funai&#8221;, explica o assessor de comunica\u00e7\u00e3o da Funasa de Roraima, Ribamar Rocha.<\/p>\n<p>N\u00fameros confusos<\/p>\n<p>De acordo com dados do livro Sa\u00fade Brasil 2006 \u2013 Uma An\u00e1lise da Desigualdade em Sa\u00fade, publicado no in\u00edcio de 2007 pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, a taxa de mortalidade entre os ind\u00edgenas, at\u00e9 os 5 anos de idade, \u00e9 de 30%. Em 2004, 626 beb\u00eas ind\u00edgenas morreram antes de completar 1 ano. Dentre esses \u00f3bitos, 107 tiveram raz\u00f5es misteriosas (causas externas 2,3%, mal definidas 12,5% e outras 2,3%).<\/p>\n<p>&#8220;Os \u00f3bitos entre crian\u00e7as menores de 5 anos na popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena devem-se principalmente a condi\u00e7\u00f5es de pobreza, como desnutri\u00e7\u00e3o, pneumonias e diarr\u00e9ias. N\u00e3o temos como dizer se fatores culturais, como o infantic\u00eddio, contribuem para a eleva\u00e7\u00e3o da taxa de mortalidade infantil. O sistema de coleta de dados n\u00e3o tem esse tipo de informa\u00e7\u00e3o&#8221;, explica Maria de F\u00e1tima Marinho de Souza, da Coordena\u00e7\u00e3o Geral de Informa\u00e7\u00f5es e An\u00e1lise em Epidemiologia do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade.<\/p>\n<p>A Funasa, por meio de sua assessoria, alega que os n\u00fameros levantados pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade est\u00e3o em desacordo com o total de \u00f3bitos entre os aldeados (as informa\u00e7\u00f5es que constam do livro Sa\u00fade Brasil 2006 incluem tanto os \u00edndios que vivem em aldeias como os que est\u00e3o em \u00e1reas urbanas), mas n\u00e3o soube dizer quais as causas de morte entre aqueles que est\u00e3o nas tribos nem se pr\u00e1ticas culturais interferem nesses dados. A taxa de mortalidade infantil nas aldeias, segundo o \u00f3rg\u00e3o p\u00fablico, foi de 39,1 \u00f3bitos para cada mil nascidos vivos no ano passado, bem mais elevada do que a verificada entre a popula\u00e7\u00e3o brasileira, que \u00e9 de 23,6. As duas, no entanto, est\u00e3o bem acima do que a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) estipula como aceit\u00e1vel, que \u00e9 de dez \u00f3bitos por mil nascidos vivos.<\/p>\n<h3>Cortina de fuma\u00e7a<\/h3>\n<p>Para o coordenador de Assuntos Externos da Funai, Michel Blanco Maia e Souza, os casos de infantic\u00eddio n\u00e3o merecem maior aten\u00e7\u00e3o do governo. &#8220;N\u00e3o temos esses n\u00fameros, mas acredito que sejam epis\u00f3dios isolados.&#8221; Segundo Souza, a preocupa\u00e7\u00e3o com os homic\u00eddios de beb\u00eas nas tribos vem sendo expressada por miss\u00f5es religiosas, que v\u00eaem no debate uma oportunidade de permanecer em territ\u00f3rios ind\u00edgenas isolados. &#8220;Est\u00e3o tentando usar essa quest\u00e3o para criar uma cortina de fuma\u00e7a e desviar o foco do problema da interfer\u00eancia de seus mission\u00e1rios na cultura dos \u00edndios&#8221;, diz ele, alegando que o trabalho de algumas organiza\u00e7\u00f5es \u00e9 meramente proselitista.<\/p>\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o do coordenador, a Funai e a Funasa d\u00e3o a assist\u00eancia necess\u00e1ria aos \u00edndios para evitar a matan\u00e7a de crian\u00e7as. &#8220;Se h\u00e1 beb\u00eas que nascem com problemas, j\u00e1 temos profissionais e m\u00e9dicos que oferecem solu\u00e7\u00f5es e tratamentos para evitar que sejam sacrificados. Mesmo entre grupos n\u00f4mades, quando a mulher tem v\u00e1rios filhos, damos assist\u00eancia para que ela n\u00e3o mate nem abandone alguma crian\u00e7a. Mas s\u00e3o epis\u00f3dios rar\u00edssimos. Desconhe\u00e7o outras formas de infantic\u00eddio que estejam sendo praticadas&#8221;, conclui o funcion\u00e1rio da Funai.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 o que pensa M\u00e1rcia Suzuki. Etnoling\u00fcista com mestrado em ling\u00fc\u00edstica ind\u00edgena pela Universidade Federal de Rond\u00f4nia, ela esteve no centro do imbr\u00f3glio causado pela retirada de dois beb\u00eas da tribo suruuarr\u00e1, em 2005, para tratamento m\u00e9dico em S\u00e3o Paulo. Na ocasi\u00e3o, Funasa e Funai acusaram os mission\u00e1rios evang\u00e9licos da organiza\u00e7\u00e3o Jovens com uma Miss\u00e3o (Jocum), que atuavam na \u00e1rea dos suruuarr\u00e1s \u2013 uma tribo isolada, com cerca de 130 \u00edndios \u2013, de &#8220;seq\u00fcestrar&#8221; as crian\u00e7as. M\u00e1rcia e seu marido, Edson Massamiti, que faziam parte da miss\u00e3o religiosa, defenderam-se, apresentando documentos de autoriza\u00e7\u00e3o assinados por funcion\u00e1rios do posto da Funasa de L\u00e1brea, no Amazonas, que liberavam o translado dos beb\u00eas e seus familiares. &#8220;Se eles n\u00e3o fossem levados para tratamento, certamente seriam sacrificados&#8221;, afirma M\u00e1rcia.<\/p>\n<p>Uma das crian\u00e7as, Iganani, era portadora de paralisia cerebral e a outra, Tititu, recebeu o diagn\u00f3stico de hermafroditismo. Iganani chegou a ser deixada na mata para morrer, mas sua av\u00f3 conseguiu convencer a m\u00e3e a ficar com ela. J\u00e1 Tititu quase foi morta pelo pai, que amea\u00e7ou flech\u00e1-la, mas acabou decidindo lev\u00e1-la at\u00e9 os &#8220;brancos&#8221;, para ver se saberiam o que fazer.<\/p>\n<h3>Voz pelas crian\u00e7as ind\u00edgenas<\/h3>\n<p>&#8220;Muwaji, a m\u00e3e de Iganani, \u00e9 o principal s\u00edmbolo de nossa luta. Ela nos pediu ajuda e a atendemos&#8221;, explica M\u00e1rcia, que fundou no fim do ano passado a Atini (voz, em suruuarr\u00e1), uma organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o-governamental (ONG) cujo objetivo \u00e9 &#8220;erradicar a pr\u00e1tica do infantic\u00eddio nas aldeias ind\u00edgenas do Brasil&#8221;. Buscando alcan\u00e7\u00e1-lo, somou for\u00e7as com pol\u00edticos, antrop\u00f3logos, advogados, ge\u00f3logos e lideran\u00e7as ind\u00edgenas. &#8220;Temos percorrido diversas partes do pa\u00eds e contatado ONGs internacionais e at\u00e9 mesmo a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) com o intuito de denunciar essa pr\u00e1tica&#8221;, explica a etnoling\u00fcista, que viveu por 20 anos entre os suruuarr\u00e1s e os sater\u00e9s-mau\u00e9s. &#8220;Nesse per\u00edodo ocorreram 28 casos de infantic\u00eddio somente entre os suruuarr\u00e1s.&#8221;<\/p>\n<p>Desde a cria\u00e7\u00e3o da Atini, ela contabiliza, por meio de pesquisas feitas com informa\u00e7\u00f5es de miss\u00f5es religiosas, DSEIs, reportagens e dados da Funasa, que nos \u00faltimos quatro anos cerca de 500 crian\u00e7as teriam sido assassinadas por raz\u00f5es culturais. &#8220;Estamos tentando entender o infantic\u00eddio no Brasil, mas os dados s\u00e3o esparsos e n\u00e3o muito seguros.&#8221;<\/p>\n<p>Na opini\u00e3o de M\u00e1rcia Suzuki, um dos principais entraves para que o infantic\u00eddio deixe de ocorrer entre os ind\u00edgenas est\u00e1 no campo pol\u00edtico-cultural. Para ela, existe uma vis\u00e3o idealizada do \u00edndio. &#8220;Isso \u00e9 reflexo de nossa hist\u00f3ria e do que aconteceu no Brasil, com a dizima\u00e7\u00e3o de tribos. H\u00e1 um sentimento de culpa nacional. As pessoas acham que se voc\u00ea preservar a cultura ind\u00edgena, mesmo com a morte de crian\u00e7as, a d\u00edvida com os \u00edndios ser\u00e1 paga, o que n\u00e3o \u00e9 verdade&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>Suas opini\u00f5es chocam-se contra a corrente antropol\u00f3gica, segundo a qual o bem e o mal s\u00e3o relativos em cada cultura. O &#8220;bem&#8221; coincide com o que \u00e9 &#8220;socialmente aprovado&#8221;. &#8220;A quest\u00e3o do infantic\u00eddio \u00e9 muito complexa e n\u00e3o pode ser analisada separadamente da cultura e da cosmologia de cada povo. \u00c9 perigoso tratar desse assunto como se fosse um fen\u00f4meno \u00fanico, pois o que o Ocidente chama de infantic\u00eddio tem significado muito diferente em outras culturas&#8221;, explica Stephen Grant Baines, antrop\u00f3logo e professor da Universidade de Bras\u00edlia (UnB).<\/p>\n<p>Segundo ele, o assunto \u00e9 pol\u00eamico e cabe apenas \u00e0 sociedade ind\u00edgena decidir se deve ser encarado como um problema de sa\u00fade p\u00fablica. &#8220;Acho que pessoas de fora [da aldeia] n\u00e3o deveriam interferir, a n\u00e3o ser que os pr\u00f3prios ind\u00edgenas solicitem uma discuss\u00e3o sob a \u00f3tica dos direitos humanos.&#8221;<\/p>\n<h3>Aspectos legais<\/h3>\n<p>A advogada Ma\u00edra de Paula Barreto discorda e pede uma a\u00e7\u00e3o, por parte do governo, para frear os casos de sacrif\u00edcio de crian\u00e7as nas tribos. &#8220;Sou a favor dos direitos humanos como algo universal, comum a todos os povos. Acredito que quando h\u00e1 choque com a cultura, o que prevalece s\u00e3o os direitos fundamentais&#8221;, afirma a pesquisadora, que \u00e9 doutoranda pela Universidade de Salamanca, na Espanha, onde analisa, para sua tese acad\u00eamica, a posi\u00e7\u00e3o do governo brasileiro diante dos homic\u00eddios de rec\u00e9m-nascidos ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>Ma\u00edra, que tamb\u00e9m faz parte do conselho consultivo da Atini, considera a pr\u00e1tica cultural do infantic\u00eddio um atentado aos direitos humanos. &#8220;No Brasil, de acordo com o Estatuto da Crian\u00e7a e do Adolescente (ECA), todas as crian\u00e7as devem ser protegidas. Al\u00e9m da Declara\u00e7\u00e3o dos Direitos da Crian\u00e7a, da ONU, \u00e9 lei que o Estado deve abolir pr\u00e1ticas tradicionais que causem viola\u00e7\u00f5es \u00e0 integridade f\u00edsica dos menores&#8221;, considera. Segundo ela, o artigo 231 da Constitui\u00e7\u00e3o, sobre a preserva\u00e7\u00e3o dos valores culturais, deve ser entendido a partir do artigo 5\u00ba, que trata da prote\u00e7\u00e3o \u00e0 vida.<\/p>\n<p>Ela lembra que o Brasil \u00e9 signat\u00e1rio da Conven\u00e7\u00e3o 169 da Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho (OIT) sobre Povos Ind\u00edgenas e Tribais, onde est\u00e1 definido que a cultura ind\u00edgena ou tribal deve se submeter aos direitos humanos fundamentais definidos pelo sistema jur\u00eddico nacional e internacional. &#8220;Acho que o governo deveria ter coer\u00eancia, ou seja, se quer defender o relativismo cultural no Brasil, que denuncie os tratados de direitos humanos \u2013 o que significa retirar sua assinatura desses documentos. O direito \u00e0 vida \u00e9 inato, independente de etnia ou cren\u00e7as&#8221;, afirma Ma\u00edra.<\/p>\n<p>O tema j\u00e1 chegou ao Congresso Nacional, onde reuni\u00f5es entre representantes da Funai, da Funasa e de ONGs foram agendadas na Comiss\u00e3o da Amaz\u00f4nia, Integra\u00e7\u00e3o Nacional e de Desenvolvimento Regional e na de Direitos Humanos e Minorias.<\/p>\n<p>Francisco Loebens, coordenador regional do Conselho Indigenista Mission\u00e1rio (Cimi), \u00f3rg\u00e3o ligado \u00e0 Confer\u00eancia Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), discorda que o Estado deva intervir na pr\u00e1tica cultural. &#8220;Historicamente, a interfer\u00eancia externa nas solu\u00e7\u00f5es encontradas pelos povos ind\u00edgenas, tendo como refer\u00eancia os padr\u00f5es culturais do Ocidente, tem gerado mais problemas para essas culturas. Infelizmente, o Estado brasileiro tem se ocupado muito em acabar com as diferen\u00e7as, em vez de compreend\u00ea-las&#8221;, analisa.<\/p>\n<p>Segundo Loebens, o atual modelo indigenista adotado pelo pa\u00eds inviabiliza uma aproxima\u00e7\u00e3o entre agentes do poder p\u00fablico e povos ind\u00edgenas, para uma interfer\u00eancia na quest\u00e3o do infantic\u00eddio. &#8220;N\u00e3o se trata aqui de assist\u00eancia m\u00e9dica ou psicol\u00f3gica, mas de distintas vis\u00f5es de mundo. O di\u00e1logo com base no conhecimento e respeito do outro \u00e9 o melhor caminho, pois certamente nos levaria tamb\u00e9m a reconhecer nossos defeitos, inclusive a viol\u00eancia praticada contra crian\u00e7as na nossa sociedade, em vez de enxerg\u00e1-los s\u00f3 nos outros&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o acredita que a alta taxa de \u00f3bitos entre as crian\u00e7as tenha liga\u00e7\u00e3o com pr\u00e1ticas culturais e considera que a mortalidade infantil esteja mais relacionada \u00e0 falta de terras e \u00e0s m\u00e1s condi\u00e7\u00f5es de sa\u00fade dos \u00edndios. &#8220;Inserir o infantic\u00eddio como uma das causas de morte seria transferir o problema para as comunidades ind\u00edgenas em vez de buscar pol\u00edticas p\u00fablicas mais adequadas&#8221;, aponta Loebens.<\/p>\n<h3>Terra e saneamento<\/h3>\n<p>A professora Carla Costa Teixeira, respons\u00e1vel pelo Departamento de Antropologia da UnB, tamb\u00e9m descarta que os homic\u00eddios culturais sejam numericamente significativos e, em coro com o indigenista do Cimi, aponta como fatores principais para a mortalidade infantil os problemas territoriais, a falta de alimentos e a aus\u00eancia de saneamento adequado. &#8220;\u00c9 \u00f3bvio que h\u00e1 elementos culturais. O que digo \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 comida suficiente. Isso \u00e9 s\u00e9rio e n\u00e3o pode ser resolvido apenas com a distribui\u00e7\u00e3o de cestas b\u00e1sicas&#8221;, diz, citando o caso de Dourados (MS), onde dezenas de crian\u00e7as ind\u00edgenas v\u00eam apresentando um quadro de desnutri\u00e7\u00e3o aguda. Muitas, inclusive, morrem por falta de alimenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em sua opini\u00e3o, o infantic\u00eddio n\u00e3o pode ser enquadrado como uma das causas do elevado n\u00famero de \u00f3bitos entre as crian\u00e7as ind\u00edgenas. Ela considera &#8220;um argumento perverso&#8221; vincular pr\u00e1ticas culturais com mortalidade infantil.<\/p>\n<p>Segundo Carlos Everaldo Alvares Coimbra Junior, pesquisador da Escola Nacional de Sa\u00fade P\u00fablica da Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro, &#8220;temos pouco conhecimento sobre o infantic\u00eddio entre os ind\u00edgenas. Al\u00e9m disso, os n\u00fameros oficiais n\u00e3o s\u00e3o confi\u00e1veis. Morre mais gente do que \u00e9 contado, inclusive devido \u00e0 inefici\u00eancia dos programas de sa\u00fade voltados aos \u00edndios&#8221;. Doutor em antropologia pela Universidade de Indiana (EUA), Coimbra acredita que o problema come\u00e7a na conceitua\u00e7\u00e3o do que \u00e9 &#8220;infantic\u00eddio&#8221; entre os ind\u00edgenas, j\u00e1 que na sociedade brasileira o termo \u00e9 aplicado aos casos em que a m\u00e3e mata o filho durante o puerp\u00e9rio \u2013 per\u00edodo necess\u00e1rio para que o estado geral da mulher retorne \u00e0s condi\u00e7\u00f5es anteriores \u00e0 gesta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>De acordo com o pesquisador, \u00e9 necess\u00e1rio um acompanhamento dos casos de assassinato de beb\u00eas nas aldeias. &#8220;Se alguns m\u00e9dicos dizem que m\u00e3es est\u00e3o matando seus filhos na propor\u00e7\u00e3o que consta do relat\u00f3rio dos ianom\u00e2mis, ent\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria uma investiga\u00e7\u00e3o s\u00e9ria. Essas mulheres n\u00e3o s\u00e3o assassinas vulgares. Acho que est\u00e3o sofrendo tamb\u00e9m&#8221;, pondera.<\/p>\n<p>Coimbra acredita que o caminho seja buscar entender as raz\u00f5es para os infantic\u00eddios. &#8220;N\u00e3o posso admitir que simplesmente se criminalize a mulher ind\u00edgena ou que naturalizemos uma pr\u00e1tica dessas em nome da cultura; acho que \u00e9 necess\u00e1rio ir at\u00e9 l\u00e1 para saber o que est\u00e1 acontecendo.&#8221;<\/p>\n<h3>Pr\u00e1tica comum<\/h3>\n<p>Apesar da aus\u00eancia de n\u00fameros confi\u00e1veis, a pr\u00e1tica do infantic\u00eddio \u00e9 algo comum entre as comunidades ind\u00edgenas e j\u00e1 foi documentada em diversos estudos antropol\u00f3gicos. Os motivos alegados para o sacrif\u00edcio de crian\u00e7as s\u00e3o os mais diversos, como o nascimento de beb\u00eas com defici\u00eancias f\u00edsicas ou mentais, g\u00eameos, filhos de relacionamentos extraconjugais, a prefer\u00eancia pelo sexo masculino, a ocorr\u00eancia de partos muito pr\u00f3ximos um do outro, sonhos ou maus press\u00e1gios.<br \/>\nNormalmente os rec\u00e9m-nascidos s\u00e3o abandonados no meio da mata, enterrados vivos (para que, segundo a tradi\u00e7\u00e3o, possam ver a passagem para o &#8220;outro mundo&#8221;), asfixiados com folhas ou envenenados. H\u00e1 tamb\u00e9m relatos de beb\u00eas flechados ou mortos a golpes de fac\u00e3o.<br \/>\nEntre as tribos em que o sacrif\u00edcio de beb\u00eas \u00e9 relatado est\u00e3o as etnias ianom\u00e2mi, suruuarr\u00e1, uaiuai, bororo, tapirap\u00e9, caiabi, ticuna, amondaua, uru-eu-uau-uau e paracan\u00e3.<br \/>\n&#8220;Ningu\u00e9m fala sobre o infantic\u00eddio, n\u00e3o \u00e9 algo que eles se sintam confort\u00e1veis em comentar. \u00c9 um tabu&#8221;, explica Yumi Gosso, doutora em psicologia experimental pela Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), que estudou a vida dos \u00edndios paracan\u00e3s. Segundo ela, apesar de ser inaceit\u00e1vel em nossa sociedade, a pr\u00e1tica encontra raz\u00f5es no ambiente das tribos, onde o trabalho \u00e9 muito duro para as m\u00e3es. &#8220;Imagine o que seria cuidar de duas crian\u00e7as g\u00eameas na aldeia. Isso colocaria em risco a vida das duas&#8221;, avalia. A pesquisadora explica tamb\u00e9m que os ind\u00edgenas n\u00e3o criam um la\u00e7o afetivo com o beb\u00ea logo que ele nasce. &#8220;Existe um per\u00edodo at\u00e9 que se estabele\u00e7a um relacionamento entre m\u00e3e e filho.&#8221;<\/p>\n<h3>Causas da mortalidade infantil<\/h3>\n<p><strong>Percentual de \u00f3bitos entre crian\u00e7as ind\u00edgenas menores de 1 ano de idade (dados de 2004)<\/strong><\/p>\n<p>Afec\u00e7\u00f5es perinatais: 29,2%<br \/>\nProblemas respirat\u00f3rios: 20,2%<br \/>\nDoen\u00e7as infecciosas: 12,9%<br \/>\nDoen\u00e7as end\u00f3crinas, nutricionais e metab\u00f3licas: 11,7%<br \/>\nMalforma\u00e7\u00f5es cong\u00eanitas: 8,8%<br \/>\nCausas mal definidas: 12,5%<br \/>\nCausas externas: 2,3%<br \/>\nOutras causas: 2,3%<\/p>\n<p>Fonte: &#8220;Sa\u00fade Brasil 2006 \u2013 Uma An\u00e1lise da Desigualdade em Sa\u00fade&#8221;, Minist\u00e9rio da Sa\u00fade<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.sescsp.org.br\/online\/artigo\/4141_BEBES+INDIGENAS+MARCADOS+PARA+MORRER#\">Publica\u00e7\u00e3o Original<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Beb\u00eas ind\u00edgenas, marcados para morrer Por raz\u00f5es culturais, crian\u00e7as indesejadas s\u00e3o sacrificadas nas aldeias Por MARCELO SANTOS Muwaji e a beb\u00ea Iganani \/ Foto: M\u00e1rcia Suzuki Ainda que inaceit\u00e1vel em nossa sociedade, o assassinato de beb\u00eas indesejados \u00e9 algo t\u00e3o antigo quanto a pr\u00f3pria humanidade. At\u00e9 mesmo expoentes do pensamento grego, como Arist\u00f3teles e Plat\u00e3o, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":1065,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[60],"tags":[],"class_list":["post-729","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-news"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.atini.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/729","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.atini.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.atini.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.atini.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.atini.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=729"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.atini.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/729\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2592,"href":"https:\/\/www.atini.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/729\/revisions\/2592"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.atini.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1065"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.atini.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=729"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.atini.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=729"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.atini.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=729"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}