{"id":755,"date":"2006-05-27T08:55:00","date_gmt":"2006-05-27T11:55:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.atini.org.br\/2006_05_01_archive-html114872039796303784\/"},"modified":"2019-01-08T05:53:00","modified_gmt":"2019-01-08T08:53:00","slug":"tititu-na-aldeia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.atini.org.br\/en\/tititu-na-aldeia\/","title":{"rendered":"Tititu na aldeia"},"content":{"rendered":"<p>Veja a alegria da Tititu Suruwah\u00e1 brincando no ch\u00e3o de terra na aldeia! Lembra dela no <a href=\"https:\/\/www.atini.org.br\/programa-fantstico\/\">Fant\u00e1stico<\/a> no ano passado? Pois \u00e9. Ela est\u00e1 gordinha, se desenvolvendo muito bem e adaptada, na aldeia com sua fam\u00edlia.<\/p>\n<p>A confus\u00e3o que se criou no ano passado em torno desse caso foi muito grande. Tititu tem uma defici\u00eancia hormonal que causou uma anomalia na forma\u00e7\u00e3o do \u00f3rg\u00e3o genital. Quando nasceu, sua m\u00e3e n\u00e3o sabia se era menino ou menina. Pela cultura da tribo, ela deveria ter sido morta logo ao nascer. De fato sua m\u00e3e, Kusium\u00e3, a abandonou no mato para morrer de fome ou ser devorada por algum animal. Fez isso com grande dor, mas tinha medo de se opor a tradi\u00e7\u00e3o da tribo. Vendo a dor de Kusium\u00e3, uma das tias da crian\u00e7a foi ao mato e resgatou a menina. Kusium\u00e3 e o pai decidiram ent\u00e3o lutar pela vida da crian\u00e7a&#8230; e pediram ajuda a mission\u00e1rios da Jocum, que prestam assist\u00eancia na tribo h\u00e1 muitos anos. Esses missionarios apoiaram a fam\u00edlia, conseguiram a autoriza\u00e7\u00e3o da Funai, e levaram a crian\u00e7a para S\u00e3o Paulo. L\u00e1 foram feitos os exames e foi marcada uma cirurgia corretora.<\/p>\n<p>A pol\u00eamica estava armada. Houve den\u00fancias de que os mission\u00e1rios estavam interferindo na cultura e que a viagem para S\u00e3o Paulo poderia ser prejudicial ao \u00edndios. Funai e Funasa disseram que n\u00e3o sabiam de nada e negaram ter dado autoriza\u00e7\u00e3o para a viagem. Grupos indigenistas acionaram o Minist\u00e9rio P\u00fablico exigindo que a fam\u00edlia voltasse para a aldeia imediatamente, mesmo sabendo que a crian\u00e7a seria morta se voltasse. Mesmo com toda essa oposi\u00e7\u00e3o o pai de Tititu foi firme e disse que se tivesse que voltar sem a cirurgia, n\u00e3o s\u00f3 teria que sacrificar a filha mas se suicidaria em seguida. Um grande impasse burocr\u00e1tico se travou e o caso chegou at\u00e9 a imprensa. A saga da fam\u00edlia suruwah\u00e1 comoveu o pa\u00eds e finalmente os pais de Tititu conseguiram a autoriza\u00e7\u00e3o oficial para que a cirurgia fosse feita. A menina foi operada no HC e a cirurgia foi um sucesso. Voltou para a aldeia e se adaptou perfeitamente, sendo aceita e amada por todos os parentes.<\/p>\n<p>O que essa hist\u00f3ria nos ensina? O que podemos aprender com a saga dessa fam\u00edlia suruwaha? Fica comprovado mais uma vez que as culturas ind\u00edgenas n\u00e3o s\u00e3o fr\u00e1geis como muitos defendem. Elas s\u00e3o fortes, din\u00e2micas e pass\u00edveis de transforma\u00e7\u00e3o, como qualquer outra cultura. Fica claro que os \u00edndios n\u00e3o s\u00e3o seres incapazes, facilmente manipul\u00e1veis. E tamb\u00e9m que n\u00e3o s\u00e3o eternamente presos a tradi\u00e7\u00f5es ancestrais e incapazes de questionar seus pr\u00f3prios valores. S\u00e3o seres humanos como quaisquer outros e t\u00eam o direito de serem sujeitos de sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>A \u00fanica decep\u00e7\u00e3o que a fam\u00edlia de Tititu levou para a aldeia foi a descoberta de que muitos \u201cbrancos\u201d os consideram incapazes de decidir sobre seus pr\u00f3prios assuntos. Que muita gente quer que eles continuem na mata, sem acesso aos avan\u00e7os da medicina e sem acesso aos direitos b\u00e1sicos de todo cidad\u00e3o brasileiro. Isso sim, foi um choque. As outras coisas que eles tiveram que enfrentar \u2013 como o frio de S\u00e3o Paulo, as infec\u00e7\u00f5es respirat\u00f3rias, comidas diferentes, barulho de carros e engarrafamentos \u2013 tudo isso eles enfrentaram com tranquilidade e dignidade. O que eles realmente queriam era a cirurgia e o tratamento m\u00e9dico continuado da filha. Isso eles n\u00e3o podem fazer sozinhos. Para isso eles dependem do mundo dos \u201cbrancos\u201d e est\u00e3o dispostos a pagar o pre\u00e7o.<\/p>\n<p>Hoje a preocupa\u00e7\u00e3o da ATINI \u00e9 com o tratamento m\u00e9dico de Tititu, que precisa ser mantido. Se ela deixar de tomar os horm\u00f4nios pode morrer de desidrata\u00e7\u00e3o s\u00fabita ou pode voltar a mostrar sinais de viriliza\u00e7\u00e3o. Se isso acontecer ela corre o risco de n\u00e3o sobreviver na tribo. Por isso precisamos continuar de olhos abertos e acompanhar esse tratamento. A FUNASA de Manaus garantiu que forneceria os medicamentos e providenciaria exames de sangue regulares na aldeia. N\u00f3s, da ATINI, estamos de olho.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Veja a alegria da Tititu Suruwah\u00e1 brincando no ch\u00e3o de terra na aldeia! Lembra dela no Fant\u00e1stico no ano passado? Pois \u00e9. Ela est\u00e1 gordinha, se desenvolvendo muito bem e adaptada, na aldeia com sua fam\u00edlia. A confus\u00e3o que se criou no ano passado em torno desse caso foi muito grande. 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