A dor de Muwaji

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“Por favor fique com minha filha para você. Não posso ficar com ela, vou voltar para a aldeia.” Muwaji Suruwaha.
Essas palavras de Muwaji nos causaram grande dor.

É claro que nós adotaríamos a pequena Iganani com toda alegria. O problema não é esse. Sabemos que Muwaji ama sua filha de todo o coração, e que já tem pago um preço altíssimo para preservar sua vida. O problema não é que ela não queira ficar com a filha, mas sim que ela não suporta ficar em Manaus nas condições que o governo lhe oferece.

Muwaji passou sete meses no ano passado morando na cidade, para que sua filha pudesse receber tratamento médico para a paralisia cerebral. Parte desse tratamento foi feito em SP e Iganani estava tendo excelentes resultados. Os médicos disseram que se continuasse assim ela provavelmente conseguiria andar e poderia voltar a viver na aldeia. Muwaji encheu-se de esperança e voltou à tribo somente para rever os parentes e avisar que precisava voltar para São Paulo por um período mais prolongado. Na aldeia não foi fácil, pois mesmo com o progresso que ela teve, ainda havia gente querendo que Muwaji desse veneno para a filha. Mas ela manteve-se firme, despediu-se dos parentes e voltou para a cidade. Só que, por alguma razão, a FUNASA decidiu que o tratamento deveria ser feito em Manaus, e não em SP, como tinha sido acertado com ela. Isso foi um grande erro.

Apesar de ter sempre alguém de nossa equipe morando com eles na CASAI, Manaus está sendo um pesadelo para a família suruwaha. Eles são índios isolados, mas mesmo assim estão tendo que conviver com com cerca de 200 pessoas desconhecidas, indígenas de diversas etnias. Muwaji, o irmão e as crianças são forçados a conviver diariamente com portadores de diversos tipos de doenças, como tuberculose, aids, rota-vírus, além de inúmeras viroses e doenças ainda não diagnosticadas. Muwaji e as crianças já contraíram gripe, diarréia, febre. Passam a maior parte do tempo trancados num espaço minúsculo, por medo do contato forçado para o qual ainda não estão preparados. Passam os dias apavorados com medo de contrair doenças e intimidados por não entenderem o se passa ao redor deles. Não ficam à vontade nenhum minuto e, apesar do calor, têm medo até de vestir tanga, como fazem na aldeia. Como índios semi-isolados que são, os suruwahá não poderiam nunca estar morando numa casa como essa. Eles correm o risco de voltar para a aldeia contaminados e causar uma onda de mortes sem precedentes (mas agentes da FUNAI dizem que isso é inevitável e que é normal que metade da tribo morra no contato!).

Como se não bastasse essa situação, o tratamento médico de Iganani simplesmente não está acontecendo. Para que tenha chances de vir a andar, Iganani precisa de tratamento intensivo com uma equipe multidisciplinar, como teve em SP. O tratamento aqui está sendo feito pelo SUS. Ela não foi avaliada por nenhum neurologista e ela está fazendo apenas 15 minutos “diários” de fisioterapia. Mas a última sessão foi no dia 25 de fevereiro e a próxima foi marcada para o dia 15 de março. Desse jeito, nem a mãe acredita na melhora dela. Juntando tudo isso, não é difícil entender o desalento de Muwaji. Ela tem que escolher entre ficar morando indefinidamente em condições insuportáveis, arriscando a vida dela e das crianças, sem esperança no tratamento da filha, ou voltar para a aldeia, tomar veneno e deixar que outra pessoa mate sua filha. Ela está vivendo um dilema terrível, e entregar a pequena Iganani para mim parece a única saída. Uma saída extrema, dolorida, mas lhe parece a única possível.

Mas será que nã há mesmo outra saída? Estamos preparando uma proposta para a FUNASA. Queremos que eles sejam colocados numa outra casa, ou num pequeno sítio nas proximidades de Manaus. Um lugar só para os suruwahá, onde eles possam estar seguros, ficar à vontade, possam comer sua comida tradicional e usar tanga. Nossa equipe, que já está dando assistência 24 horas na CASAI, ficaria morando com eles nessa nova casa. Sabemos que há muita oposição e que muita gente não nos quer por perto dos suruwahá, mas cremos que essa é a única maneira deles permanecerem para o tratamento. Isso precisa acontecer com urgência, pois eles já estão no limite da sua capacidade de suportar essa situação. Depois disso precisamos ver a situação do tratamento médico de Iganani. Alguma coisa tem que mudar. Para ela isso significa a possibilidade de escapar do infanticídio e de continuar convivendo com sua família. Será que ela não tem esse direito?

Continuem conosco, pois precisamos muito do seu apoio para dar aos suruwahá esperança de um futuro diferente do das outras tribos que entraram em contato com esse mundo “civilizado”. Precisamos continuar lutando pela vida e pelo respeito aos direitos dos povos indígenas.

AUTOR

Marcia Suzuki

é carioca, Mestre em linguística pela Universidade Federal de Rondônia e presidente do Conselho da ATINI.

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